CENSURA Após censura, O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu será encenado nesta sexta O espetáculo terá duas sessões em local ainda não divulgado, no município do Agreste pernambucano

Por: Marina Simões - Diario de Pernambuco

Publicado em: 25/07/2018 07:03 Atualizado em: 25/07/2018 16:38

A peça é um monólogo e traz histórias bíblicas sob a perspectiva contemporânea. Foto: Reprodução/Facebook (Foto: Reprodução/Facebook)
A peça é um monólogo e traz histórias bíblicas sob a perspectiva contemporânea. Foto: Reprodução/Facebook

Artistas se unem em uma rede de solidariedade a favor da peça O evangelho segundo Jesus, rainha do céu, protagonizado pela atriz e mulher trans Renata Carvalho, que foi retirada da programação do Festival de Inverno de Garanhuns (FIG). Para combater a transfobia e a censura, o espetáculo foi abraçado por um grupo que criou a campanha A liberdade TRANSforma, encabeçado por Rodrigo Dourado e Chico Ludermir. A peça será encenada em duas sessões nesta sexta-feira (27), em local ainda não divulgado, no município do Agreste pernambucano. Vítimas de ataques nas redes sociais, a organização vai manter o local em sigilo, revelando no dia do evento para as pessoas que compraram ingresso antecipados. Um esquema de segurança também será reforçado. 

O espetáculo convidado para a 28ª edição do FIG integrava o debate proposto pelo tema-homenagem do FIG: Um viva à liberdade. Após exigência do prefeito da cidade, Izaías Régis (PTB), que se mostrou contrário à apresentação e carta enviada pela Diocese de Garanhuns, onde o bispo Dom Paulo Jackson ameaçava “proibir que a Igreja Catedral fosse utilizada como um dos palcos do festival”, a produção foi retirada da programação. A peça é um monólogo e traz histórias bíblicas sob a perspectiva contemporânea. O texto é de Jo Clifford, traduzido e dirigido por Natalia Mallo, e já foi encenado no Recife, dentro do Trema! Festival. 

Os artistas que fizeram parte do primeiro fim de semana do FIG ampliaram o debate e defenderam a liberdade de expressão. A cantora Daniela Mecury fez discurso ao subir no Palco Mestre Dominguinhos, beijou a esposa e se mostrou indignada com a polêmica. “Não me venha agora com ignorância de conceituar o que é arte e o que não é arte. Censurar uma peça de teatro por convicções religiosas é um absurdo e isso não pode ser permitido. A nossa Constituição não é a Bíblia”, afirmou.

O cantor Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado, também homenageou Renata, dedicando a música Liberdade, a filha do vento para a atriz. “O perigo de atitudes como essa é que repercute quase que como incentivo à intolerância e ao ódio. Em todos os palcos do FIG os artistas estão empenhados para que a liberdade se cumpra. Quando a gente vê que os direitos básicos estão entrando em um retrocesso de usurpação e quando temos que lutar contra um ato ilegal de um gestor público”, defende Roger de Renor, que assina curadoria do Som na Rural, palco instalado no Parque Euclides Dourado.

Ataques 

Nas redes sociais, as publicações sobre o espetáculo O evangelho segundo Jesus, rainha do céu, receberam diversas ameaças. “As ameaças vão desde ‘vamos fazer protestos’, a ‘vou dar pauladas’, ‘meter o tiro’, entre outras. Esse tipo de linguagem de ódio vem de pessoas que se intitulam em defesa da religião. É uma coisa muito agressiva e perigosa”, aponta a diretora Natalia Mallo. “A gente está preocupado e assustado. As pessoas não têm vergonha de usar seus perfis pessoais dizendo que vão bater, matar e crucificar. E essas ameaças vêm em nome de Deus”, comenta um dos articuladores do espetáculo em Garanhuns, Chico Ludermir.

Segundo os organizadores, cerca de 40 ameaças foram protocoladas na delegacia e no Ministério Público. “A cidade precisa discutir o tema. Os ataques se intensificam quando políticos endossam esse preconceito”, explica Chico. No sábado, o coletivo A liberdade TRANSforma vai promover roda de diálogo com a Comunidade LGBT de Garanhuns, no Parque Euclides Dourado, para discutir temas como a censura e o combate à transfobia. “As pessoas colocadas à margem não vão mais se calar e não aceitam ser silenciadas e censuradas”, completa Chico.

Perguntas // Natalia Mallo, diretora

Com a confirmação da apresentação do espetáculo, o que você espera?
Espero uma grande movimentação, mas a prioridade é que o trabalho aconteça e seja visto. Se fala em questões religiosas, de censura e de opressão. Mas queremos divulgar a peça. É uma obra artísticas pela representatividade trans e tem muitas qualidades. O texto é baseado em uma mensagem de humanidade, proteção da vida e de como coletivamente é possível pensar em um mundo igualitário. A peça sonha com isso, perdoa a todos, é fundamentalmente cristã. Sem falar na interpretação de Renata, que é fantástica. Esses ataques vêm escancarar todo o preconceito. Eu aproveito e faço esse convite para quem critica: vem ver qual a ofensa na peça, qual a ofensa em ser travesti? Do nosso ponto de vista, não há nenhum.

Vocês temem retaliação?
Vai ter um esquema de segurança e revista do público. A gente não gosta disso, mas vamos revistar o público para proteger a integridade da atriz. Quem não concordar não vai poder assistir. Também temos um grupo, um verdadeiro escudo humano, uma rede de proteção, que se mobilizou para estar no local.


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