Artes plásticas Exposição de artista francês no Recife usa o surf para refletir sobre o meio ambiente Danger, de Serge Huot, pode ser uma metáfora da destruição da vida oceânica em qualquer lugar do planeta

Por: Caio Ponciano

Publicado em: 24/07/2018 08:35 Atualizado em: 24/07/2018 09:10

Os trabalhos da mostra partem de escrituras visuais de Huot sobre pranchas de surf, que foram descartadas, recolhidas na areia da praia e doadas por surfistas. Foto: Wesley D'Almeida/PCR/Divulgação
Os trabalhos da mostra partem de escrituras visuais de Huot sobre pranchas de surf, que foram descartadas, recolhidas na areia da praia e doadas por surfistas. Foto: Wesley D'Almeida/PCR/Divulgação


Foi a partir de um encontro na praia com restos vindos do mundo industrializado, encalhados como algo abandonado, que o artista visual francês Serge Huot teve o ímpeto de criar a exposição Danger, que ficará em cartaz gratuitamente na Galeria Janete Costa, localizada no Parque Dona Lindu, até o dia 16 de setembro. Os trabalhos da mostra partem de escrituras visuais de Huot sobre pranchas de surf, que foram descartadas, recolhidas na areia da praia e doadas por surfistas. O artista retalhou e colou os pedaços como se fossem constelações, permitindo leituras diversas e metáforas acerca do surfista e de seu mundo concernente.

Segundo Huot, Danger pode ser uma metáfora da destruição da vida oceânica em qualquer lugar do planeta. Por isso, ao entrar na galeria, os visitantes vão se deparar com pedaços de prancha espalhados pelo chão, fazendo alusão aos lixos que dizimam a vida nos oceanos. “A praia é um território aberto, totalmente neutro, que nos leva além e nos interroga sobre esses resíduos provindos do burburinho do mundo. Essa exposição nos coloca em uma problemática de sociedade como humanidade, questionando nossos comportamentos”, comenta o artista. Os demais ambientes da Galeria Janete Costa são tomados por esculturas - feitas de pedaços de prancha - de entidades, que dão um novo significado e devolvem a vida ao lixo, além de gravuras em papel fotográfico e vídeos com imagens e sons do mar, que ecoam por todo o espaço.

Danger tem curadoria assinada por Valquiria Farias. Na avaliação de Huot, o processo curatorial é bastante enriquecedor para o artista, pois permite uma maior leitura da obra e de sua evolução e relação com o público. “Valquiria conversou comigo durante vários meses, visitou meu ateliê e me acompanhou até a montagem da exposição. Através do trabalho dela, eu consigo enxergar a questão relacional e afetiva como um motor dessa criação”, conclui. A exposição de Serge Huot tem como principal influência o novo realismo francês, com noções de acúmulo e efemeridade das coisas.

Serviço
Danger - Exposição do artista Serge Huot
Visitação: de 22 de julho a 16 de setembro
Horário: Quarta a sexta-feira, das 12h às 20h; Sábados, das 14h às 20h; Domingos, das 15h às 19h
Onde: Galeria Janete Costa - Parque Dona Lindu
Quanto: Entrada gratuita
Informações: 3355-9825

Sobre o artista
O francês Serge Huot é formado em comunicação oral pela Universidade Louis Lumiére, em Lyon, e em história da filosofia pela Universidade Popular de Romans, ambas na França. Em 1989, começou nas artes plásticas e visuais na Escola Experimental de Arte. Sua primeira exposição individual foi na Galeria Gaiart, em Marselha, e ganhou o nome de Arquétipos. Desde então, Huot não parou mais de criar e expor seus trabalhos. O artista já participou de várias coletivas no Brasil, França, Itália, Turquia e Alemanha. Em 2007, deu início ao projeto residência de arte no Brasil Arapuca arte residência: Arte e vida, no Litoral Sul da Paraíba, onde reside até hoje.

O artista retalhou e colou os pedaços como se fossem constelações, permitindo leituras diversas e metáforas acerca do surfista e de seu mundo concernente. Foto: Wesley D'Almeida/PCR/Divulgação
O artista retalhou e colou os pedaços como se fossem constelações, permitindo leituras diversas e metáforas acerca do surfista e de seu mundo concernente. Foto: Wesley D'Almeida/PCR/Divulgação


Entrevista  Serge Huot  //  artista plástico

De que forma o novo realismo francês foi fundamental para que você criasse essas obras?
O Pierre Restany, com quem tive uma grande aproximação e foi o teorizador do novo realismo, deixou comigo uma fonte de reflexão a partir do seu manifesto da natureza integral. É nesse manifesto que encontro a base das minhas construções. Formalmente, existe um ponto de partida do novo realismo com questões como: Acúmulo, críticas à sociedade de consumo, os assemblage (técnica usada para definir colagens com objetos e materiais tridimensionais) etc. São coisas que influenciaram minha juventude e é a partir do manifesto da natureza integral que minha produção se refere. Eu faço uma racionalização ao recortar as pranchas e os objetos que acumulo, mas não altero nada neles. O Restany foi uma pessoa incrível para mim, sempre abriu a porta de sua casa ou de seu escritório em Paris e sempre esteve disponível para me ouvir. Essa experiência humana é vital também na compreensão do meu trabalho, pois, ao falar da “disponibilidade afetiva”, aciono em mim uma maneira de ser artista e de me comunicar com a sociedade.

Qual a sua ligação com o surf e com o Recife?
Essa ligação é bem antiga. Sempre fui muito nômade e a praia é meu universo predileto. O surf me apareceu muito cedo, como um exemplo filosófico de vida e uma total integração com os elementos da natureza, e é nessa natureza que se encontra uma possibilidade metafórica para reagir aos problemas da sociedade de hoje em um território amplo e universal. Isso é muito importante para mim, pois assim me sinto cidadão do mundo. Recife teve e tem uma importância primordial na minha carreira de artista e nessa posição humana, pois a cidade e seus artistas abriram outros e novos horizontes estéticos nos quais sempre me identifiquei.

De onde surgiu a ideia de fazer uma mostra com esse tipo de material? 
Nasceu nesse processo de vivência ao me apropriar das coisas do meu entorno, aparentemente banais, mas que podem levar a reflexões muito profundas porque estão diretamente ligadas ao nosso cotidiano. Eu comecei a catar as pranchas em 2013, quando estava fazendo outro trabalho com materiais achados e o surf se revelou a mim como questões existenciais.


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