Música O artista engajado vira tendência e está de volta na música brasileira Tensões experimentadas pelo mundo contemporâneo inspiram canções e discos, cujas letras falam de assédio sexual, intolerância e homofobia

Por: Pedro Galvão - Estado de Minas

Publicado em: 23/07/2018 10:01 Atualizado em:

Atualmente, o grupo Titãs roda o Brasil com o show do disco 'Doze flores amarelas' (2018), uma ópera-rock sobre três garotas sexualmente abusadas por cinco rapazes em uma festa. Foto: Facebook/Reprodução
Atualmente, o grupo Titãs roda o Brasil com o show do disco 'Doze flores amarelas' (2018), uma ópera-rock sobre três garotas sexualmente abusadas por cinco rapazes em uma festa. Foto: Facebook/Reprodução

Os franceses começavam a comemorar o título mundial diante do placar contra os croatas quando quatro mulheres tentaram roubar a cena, invadindo o gramado na final da Copa, em Moscou. Eram integrantes do Pussy Riot, banda de punk rock mais conhecida pelo ativismo político do que pela música. Para elas, assim como para artistas dedicados a outros ritmos, palcos e estúdios sempre foram local de protesto. Em meio às tensões ideológicas em todo o planeta, essa característica virou tendência. Mesmo quem adotava discurso artístico mais ameno vem optando por letras que dialogam com causas urgentes.

Nos anos 1980, quando o rock brasileiro vivia uma efervescência plural, os Titãs se tornaram ícones justamente por falar em tom mais sério do que o adotado pelo televisivo “mainstream” da época. Ao longo das três décadas de carreira, as críticas à polícia, à Igreja, ao Estado e à estrutura familiar – contundentes em álbuns como Cabeça dinossauro (1986) – deram lugar a composições mais digeríveis. O hit Epitáfio (2001) é um exemplo. Este ano, Tony Bellotto, Sérgio Britto e Branco Mello, remanescentes da formação original, voltaram às origens no novo trabalho do grupo – desta vez, abraçando a causa feminina.

Doze flores amarelas, 15º álbum de estúdio da banda, é uma ópera-rock sobre três garotas sexualmente abusadas por cinco rapazes em uma festa. “A culpa é toda minha/ Me desculpem/ Me vestir assim/ Me estuprem/ Eu quis sair sozinha/ Me desculpem/ Estar falando em mim”, diz Me estuprem, uma das 29 faixas do disco. Escrita por homens, contando com Marcelo Rubens Paiva na elaboração do argumento, a obra já foi apresentada em Curitiba e em São Paulo. O CD e o DVD serão lançados em setembro.

Para o vocalista Sérgio Britto, é necessário assumir posição sobre esse tema. “É um assunto de todos nós. Não estamos roubando a voz de ninguém, estamos dando o nosso enfoque sobre uma coisa que nos toca. Essa música e o verso ‘me desculpem’ vêm gerando reação positiva nas pessoas. Temos muito cuidado ao falar do assunto, sabemos que é sensível e por isso não deve ficar escondido. Pelo contrário, temos que falar. Afinal, essa é a nossa marca como banda”, argumenta o cantor do Titãs.

Britto diz que o nível de engajamento das letras é questão particular de cada artista, mas pondera: “Com certeza, é papel do rock falar não só de temas sociais, mas comportamentais. Abrir a cabeça das pessoas, fazer refletir. Mais que um gênero musical, é um jeito de expressar a individualidade do que você pensa, das maneiras mais diversas. Hoje em dia, isso é muito raro. Os assuntos estão por aí, nas redes sociais, mas não são todas as canções que falam de coisas polêmicas.”

ÓDIO Outro destaque do rock brasileiro, tanto pela longevidade quanto pelo som e letras pesadas, o Raimundos também mudou o tom da conversa em seu novo lançamento. Faça sua parte, single em parceria com o CPM 22, diz: “Não se vê mais união/ Por isso nossa sociedade não sai nunca do lugar/ O importante é olhar pra frente e não ter ódio de ninguém”. Embora genérica, a mensagem é mais alinhada às tensões do mundo do que a maioria dos antigos hits do grupo brasiliense – Puteiro em João Pessoa, Mulher de fases e Eu quero é ver o oco.

Aos 62 anos, Marina Lima é uma das principais vozes da música brasileira desde a década de 1970. A maioria de seus trabalhos fala de amor e questões sentimentais. Em março, depois de sete anos, ela voltou a lançar um disco de inéditas. O hiato foi quebrado pela batida do funk Só os coxinhas, single que divulgou Novas famílias, seu novo e engajado álbum. Segundo a cantora, a letra se refere “à gente careta e chata, que só pensa em dinheiro, independentemente do partido ou causa social”.

Na época do lançamento, ela explicou: “Moro no Brasil, sou daqui e quero que o país dê certo. Não aguento mais tudo o que nos envergonha. Não dá pra trabalhar com cultura popular ignorando o que está acontecendo. Tem que ser muito alienado e egoísta”. Outras canções do álbum seguem esse filão mais contestador. É o caso da faixa-título: “Novas famílias/ Com terras molhadas de amor/ Minando qualquer ditador”. Domingo (29), Marina apresenta seu novo show no Sesc Palladium, em Belo Horizonte.

ROMPIMENTO Se alguns artistas levam anos para assumir tom mais crítico – ou voltar a ele –, outros o fazem logo no início da carreira. O paulista Diego Moraes se destacou como finalista do programa Ídolos (TV Record), em 2009. O resultado foi um contrato com a EMI e um disco ao vivo com releituras de sucessos da MPB. Mas não era o que o cantor queria. Diego rompeu com a gravadora, voltou a ser independente e lançou #ÉqueEuAndodeÔnibus. “Esse disco é o reflexo do cotidiano de um jovem que tenta sobreviver feliz em um país politicamente caótico e no abismo”, explicou. O projeto surgiu dos questionamentos sobre o que ele vivenciou depois de abrir mão da gravadora e mergulhar nas tensões sociais do país. “Minha geração faz questão de falar de temas mais sensíveis porque muitos artistas das gerações anteriores preferiram se calar sobre alguns tabus, como sexualidade e gênero. Talvez por isso estejamos nesse retrocesso em relação a esses assuntos”, afirma Diego.

Revelado por um talent show – ao qual, aliás,  agradece –, o jovem intérprete cobra desses projetos mais espaço para novas ideias musicais. “Fiquei imerso na ilusão de que cantaria para sempre versões como as do programa, sendo que precisamos falar de coisas urgentes. Não posso ficar cantando Amei te ver (de Tiago Iorc) com tanta gente morrendo nas ruas simplesmente por abraçar quem ama”, enfatiza, referindo-se à violência sofrida pelo público LGBT. Por isso, há quem prefira já começar com esse propósito. As cantautoras belo-horizontinas Violeta, Natália Sandim, Jess e Priscilla Glenda formaram a banda V.A.D.I.A.S (Verdadeiras e Autênticas com Direitos Iguais Aos Seus), que estreou sexta-feira, na casa de shows A Autêntica.

“Na cena de BH, sempre achei a participação feminina muito pequena e restrita a intérpretes. Então, pensei num projeto para fortalecer as mulheres”, explica Priscilla Glenda, que também integra o grupo Djambê. Com percussão e sampler, ela e as companheiras rearranjam canções de nomes consagrados, como Elza Soares e Rita Lee, dialogando com o empoderamento feminino.

O repertório da banda tem apenas uma canção autoral: Eu não mereço, escrita por Priscilla. “É sobre o direito da mulher sobre seu próprio corpo, de andar com a roupa que quiser. A inspiração veio depois de um assédio que sofri na rua. Fiquei muito mexida, não tive reação na hora, só consegui me expressar depois com essa letra”, conta. Para ela, música é “semente da mudança, pois pode ser levada para qualquer lugar”.



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