Educação Estudante cega é aprovada no curso de música da UFPE

Por: Anamaria Nascimento

Publicado em: 30/01/2019 14:45 Atualizado em: 30/01/2019 16:07

Amanda perdeu a visão aos seis anos e estuda música desde 2015. Foto: Arquivo Pessoal.
Amanda perdeu a visão aos seis anos e estuda música desde 2015. Foto: Arquivo Pessoal.
Amanda ainda lembra dos rostos da mãe, da irmã e do pai. Na memória, todos têm a fisionomia de 20 anos atrás. Recorda também das cores, números e letras. Tanto que assina o próprio nome sem dificuldades. As lembranças são de quando ela tinha 6 anos. Pouco depois de ser alfabetizada, perdeu completamente a visão dos dois olhos. Duas décadas depois, Amanda Tamiris da Silva Morais, 26, recebeu a notícia de que foi aprovada no vestibular da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). É a única deficiência visual e uma das quatro mulheres aprovadas para a primeira entrada da licenciatura em música da principal universidade do estado.

Os obstáculos na vida escolar surgiram logo após o diagnóstico da cegueira. Em Nazaré da Mata, onde mora, não havia profissionais habilitados a trabalhar com braile. Ficou três anos sem estudar até a chegada de uma psicopedagoga especializada em deficiência visual chegar ao município da Mata Norte. Retomou os estudos e concluiu, em 2012, o ensino médio na Escola Estadual Maciel Monteiro. Embora o sonho de ingressar no ensino superior ainda estivesse distante, a estudante já imaginava que queria seguir na carreira musical.


Na adolescência, dividia o tempo entre a escola e a igreja, onde cantava no coral. "Comecei a cantar aos 12 anos. Imaginava que ia seguir na área de canto até entrar no Conservatório (Pernambucano de Música). Comecei no canto, mas descobri minha afinidade com o teclado, instrumento que estudo e toco hoje", diz. Falta um semestre para Amanda terminar o curso no conservatório. "Não vou desistir dele. Ficarei conciliando com a universidade", afirma. 

A família planeja sair de Nazaré da Mata pela primeira vez. A mãe, a irmã e a sobrinha de Amanda devem acompanhá-la e se mudar para o Recife no próximo semestre. "Por enquanto, pelo menos no primeiro período, vou ficar indo de onde moro para lá, mas já havíamos pactuado que se eu passasse, pensaríamos em morar no Recife", conta. Ela vai percorrer 65 km diariamente para frenquentar as aulas na UFPE. 

Amanda nasceu com catarata congênita, mesma doença que a avó materna tinha. "Minha mãe fez o pré-natal corretamente, mas o médico não indicou que quando eu nascesse fizesse o teste do pezinho (exame feito com o sangue do calcanhar do bebê para prevenir e combater doenças). Se tivesse feito, saberia da catarata e eu poderia ter feito a cirurgia antes dos quatro meses, o que é indicado para não perder a visão", diz. A mãe só desconfiou de que a menina podia ter alguma dificuldade de enxergar quando ela já estava com nove meses. "Eu pegava os objetos para ver muito de perto. Foi quando minha mçae começou a buscar médicos e descobriu a doença no olho esquerdo."

A primeira cirurgia só foi feita quando Amanda tinha 2 anos e meio. Quatro anos depois, começou a perder a visão do olho direito. Passou por outro procedimento cirúrgico, mas perdeu completamente a visão três meses depois da segunda cirurgia. "Foi logo depois de eu ser afalbetizada. Ainda tenho a lembrança dos rostos dos meus familiares, das letras e dos números", conta. Depois de perder a visão, Amanda passou a atentar mais para os outros sentidos. "As pessoas acham que é superpoder, mas não é. É aprendizagem. Sem um sentido, vamos aprendendo a usar melhor os outros. A audição e o tato são os que mais se desenvolveram em mim", observa. 

Em 2015, participou da seleção do Conservatório Pernambucano de Música, que reuniu cerca de 90 inscritos, com diferentes deficiências. Não só foi aprovada como garantiu o pioneirismo ao se tornar a primeira mulher totalmente cega a ingressar na instituição que existe desde 1930. Voltou a quebrar barreiras esta semana, quando se tornou a única estudante cega da turma da primeira entrada da licenciatura de música da UFPE em 2019.

Prova

Amanda participou de um processo seletivo acirrado para ingressar no ensino superior. A seleção do curso de música foi dividida em três etapas. Foram considerados para chegar à lista dos selecionados a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), uma prova teórica e uma prova prática, realizada por meio de um vídeo enviado à Comissão de Processos Seletivos e Treinamento (Covest), da UFPE. Habilidade instrumental, solfejo, percepção musical e teoria musical formaram os testes. "Percebi uma certa inabilidade da Covest em lidar com um candidato com deficiência visual. Faltando cinco dias para a prova, me ligaram perguntando se precisaria de prova em braile. Quando cheguei não tinha. A UFPE, porém, disponibilizou uma professora, que fez a tradução. Apesar de eu ter sido aprovada, acredito que um cuidado maior nesse sentido seja importante nas futuras seleções."

O pró-reitor para Assuntos Acadêmicos da universidade, Paulo Goes, ressaltou que a UFPE tem impressoras em braile para dar suporte aos estudantes com deficiência visual da instituição. "A Covest entendeu que ela seria melhor assistida com o suporte da professora. Nossa política é de garantir o acesso e condições para que todos os candidatos, com qualquer tipo de deficiência, tenha a participação garantida. Ela foi aprovada, o que demostra que não houve prejuízo", respondeu.  
  

 

   



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