notícias Pesquisa mostra que 'fake news' são disseminadas por pessoas, não por robôs Pesquisadores dos EUA analisaram 126 mil tuítes em cascata. Notícias mais compartilhadas são aquelas que aparentam ter informações inéditas

Por: Paloma Oliveto - Correio Braziliense

Publicado em: 13/03/2018 09:46 Atualizado em:

Foto: Paulo Paiva/DP (Foto: Paulo Paiva/DP)
Foto: Paulo Paiva/DP


Os fabricantes de fake news têm à disposição um exército de usuários da internet, sempre prontos para disseminar o conteúdo falso aos seguidores, sem questioná-lo nem checar a veracidade das fontes. E não se trata de robôs nem de pessoas pagas para isso. No primeiro estudo a investigar a forma como informações mentirosas são replicadas na rede, pesquisadores do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, descobriram que, ao contrário do imaginado, os bots (aplicativos que se comportam como humanos) não são os principais responsáveis por compartilhar as fake news. Em vez disso, quem desempenha esse papel é o cidadão comum.

Especialmente depois das eleições norte-americanas de 2016, quando uma máfia russa plantou informações falsas sobre a candidata democrata, Hillary Clinton, nas redes sociais, a preocupação com as fake news se intensificou não só no meio político, mas no acadêmico. A constatação de especialistas em tecnologia, comunicação, sociologia e psicologia é de que, por enquanto, o mundo está diante de um inimigo imbatível. Pouco se sabe sobre o fenômeno, tanto no que diz respeito à motivação do usuário para compartilhar os boatos quanto aos padrões de disseminação das mentiras pela internet.

Para investigar essa segunda questão, Soroush Vosoughi e Deb Roy, do Laboratório de Mídia da instituição norte-americana, e Sinan Aral, da Faculdade Sloan de Gestão do MIT, realizaram o maior estudo longitudinal sobre o espalhamento das fake news no ambiente virtual. Eles se debruçaram sobre todas as histórias falsas e verdadeiras verificadas por seis organizações independentes de checagem de fatos que foram distribuídas no Twitter de 2006 a 2017. Os pesquisadores analisaram aproximadamente 126 mil tuítes em cascata — quando uma postagem é replicada em cadeia sobre notícias falsas e verdadeiras compartilhadas por 3 milhões de pessoas, 4,5 milhões de vezes. Os resultados surpreenderam os pesquisadores por revelarem padrões diferentes dos imaginados.

Um dos focos de interesse da equipe era descobrir o que faz um tuíte ser compartilhado em cascata. A primeira constatação foi de que informações falsas são disseminadas mais rápido e têm um alcance bem maior do que as verdadeiras. Isso, independentemente do teor: matérias de política, saúde, ciência, economia ou sobre tragédias e fenômenos naturais. No geral, as fake news têm 70% mais chance de serem retuitadas do que as reais, diz o trabalho, publicado na edição desta semana da revista Science.

Embora esse não tenha sido o escopo do estudo, os pesquisadores acreditam que isso ocorre pelo caráter quase sempre surpresa das notícias falsas que, justamente por não terem compromisso com a verdade, podem ser tão “emocionantes” quanto uma obra ficcional. Um monitoramento da versão norte-americana do site BuzzFeed sobre as fake news mais compartilhadas no Facebook no ano passado dá uma amostra disso: “Babá é hospitalizada após inserir bebê na vagina” ficou em primeiro lugar, por exemplo.

Romanceadas
A equipe quis verificar se, de fato, usuários do Twitter tendem a repassar mais informações no estilo romanceado e, para isso, conduziu outra pesquisa paralela. “As fake news que se espalham mais rápido são mais ‘inéditas’ e romanceadas. Esse tipo de notícia falsa é a que tem maior quantidade de compartilhamento”, observa Soroush Vosoughi. “As histórias falsas inspiram sensações como medo, nojo e surpresa. Por outro lado, as verdadeiras trazem mais comentários com conteúdo expressando tristeza, alegria ou confiança”, continua.

Segundo Sinan Aral, embora seja preciso investigar melhor essa questão, teorias da ciência da informação podem oferecer explicações. “A novidade atrai a atenção humana porque atualiza nossa compreensão do mundo. Quando a informação é nova, não é só surpreendente, mas mais valiosa, no sentido de que aquele que a possui ganha status social”, diz.

Os cientistas também queriam saber quem é o maior responsável pela disseminação das mentiras. Para tanto, utilizaram um algoritmo para eliminar os bots do universo de pesquisa. Descobriram que o homem é o principal redistribuidor de fake news. Outra constatação inesperada foi a de que os usuários que espalham notícias falsas reproduzidas em cascata não são populares: no geral, têm poucos seguidores e não são tão ativos na rede.

Para os pesquisadores, essas descobertas merecem estudos adicionais, que aprofundem o conhecimento sobre fake news. “ Esperamos que nosso trabalho inspire mais pesquisa de larga escala sobre as causas e as consequências da disseminação das notícias falsas, assim como as curas em potencial”, escreveram no artigo.

"A novidade atrai a atenção humana porque atualiza nossa compreensão do mundo. Quando a informação é nova, não é só surpreendente, mas mais valiosa, no sentido de que aquele que a possui ganha status social”
Sinan Aral,pesquisador do Instituto Tecnológico de Massachusetts

Esforço conjunto
A escalada das fake news preocupa um grupo de 15 cientistas que, na edição desta semana da revista Science, fez uma chamada global para tentar combatê-las. “O que nós queremos transmitir é que as fake news são um problema real, um problema complicado, e que requer pesquisa séria para solucionar”, diz um dos coautores do artigo, Filippo Menczer, professor da Faculdade de Informática, Computação e Engenharia da Universidade de Indiana. Segundo ele, é necessária uma investigação coordenada sobre os mecanismos sociais, psicológicos e tecnológicos por trás das notícias falsas.

O artigo estima que o número de bots no Facebook seja 60 milhões, e 48 milhões no Twitter, com base em um estudo recente de Menczer. Diminutivo de robô, os bots são softwares que simulam a ação humana na internet — como postar e replicar informações. “Disseminadores de fake news estão usando métodos cada vez mais sofisticados. Se não tivermos informação quantificável suficiente sobre o problema, nunca seremos capazes de planejar intervenções que funcionem. Esse artigo é realmente uma chamada a grupos de acadêmicos, jornalistas e da indústria privada pelo globo para trabalhar juntos e atacar o problema”, diz Menczer.

Isso inclui companhias de tecnologia que criam plataformas usadas para produzir e consumir informação, como Google, Facebook e Twitter. Os autores sustentam que essas empresas têm uma “responsabilidade ética e social que transcende as forças do mercado” para contribuir com a pesquisa científica sobre as fake news. Além disso, os cientistas destacam que a informação falsa afeta não apenas a esfera política, mas áreas como saúde pública (um exemplo são os boatos de que vacina causa autismo) e mercado financeiro. Eles dizem que o problema é particularmente intratável, porque algumas pesquisas descobriram que repetir uma mentira para corrigi-la pode, no lugar disso, fazer com que a fake news se arraigue no cérebro.

Uma solução proposta por Menczer é pesquisar rigorosamente a efetividade de cursos voltados a estudantes de ensino médio que ajudem os jovens a reconhecer fontes falsas de notícias. Ele também sugere mudanças específicas nos poderosos algoritmos, que, cada vez mais, controlam o acesso das pessoas às informações on-line. “O desafio é que há tantas vulnerabilidades que ainda não entendemos e que há tantas peças diferentes que podem ser usadas para manipular, quando se trata de fake news. É um problema muito complexo que deve ser atacado de todo ângulo possível.” 


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