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História » Era uma vez uma comida dos pobres

Paulo Goethe - Diario de Pernambuco

Publicação: 08/04/2017 08:00 Atualização: 08/04/2017 10:38

Quando o Diario de Pernambuco começou a circular, há 191 anos, o produto já era consumido pelos moradores menos abastados da província. A primeira menção dele no jornal é do dia 3 de março de 1827, quando uma carga veio a bordo de uma embarcação inglesa que aportou no Recife. Acondicionado em barricas, era um gênero solicitado pela Marinha, juntamente com o feijão, para dar a energia necessária à tripulação para enfrentar as longas travessias oceânicas.

No dia 11 de abril de 1827, o Diario contava, na sua seção Variedades, a história de um bêbado que percebeu que um taverneiro queria lhe roubar a peça que levaria para casa. Acabou o ladrão levando o dito cujo nas fuças, em uma esquina malcheirosa da capital pernambucana.

Assim como o jornal mais antigo em circulação na América Latina, o bacalhau – nome genérico do processo de salga de quatro espécies de pescado (Saithe, Ling, Zarbo e Cod, o mais nobre) – sempre rendeu histórias deliciosas.
Hoje iguaria cara, o peixe salgado importado da Europa e da América do Norte já foi usado como moeda de troca para aquisição de escravos ou consumido principalmente pelos próprios cativos, por causa do baixo preço. O pirão resultante da mistura do caldo de bacalhau com farinha de mandioca era conhecido como “mingau de pipinga”.

No século 19, comia-se assado na brasa ou com farinha. Era também dado aos presos, mas como forma de castigo. O condenado comia, mas não podia beber água, padecendo de uma sede atroz. Com o charque e a rapadura, constituía o farnel do dia a dia dos mais pobres.

Até a primeira metade do século 20, o bacalhau continuou sendo vendido em barricas no mercado de estivas. Os pernambucanos de classe média que quisessem comê-lo tinham que tomar algumas precauções: fechavam-se portas e janelas e se cozinhava o peixe até que não pudesse exalar o cheiro característico. Ai daquele que fosse conhecido na vizinhança como comedor de bacalhau. Para as crianças, a lembrança era do óleo de fígado de bacalhau, a vitamina D milagrosa de gosto amargo.

A ocorrência das duas guerras mundiais afetou de vez o preço do bacalhau. A dificuldade de importação jogou o preço nas alturas, como se mantém até hoje, ajudado também pela baixa na produção mundial e uma maior procura no mercado global. Em 1930, Pernambuco importou 11 mil contos de réis em bacalhau. Em 1939, o custo foi reduzido para quase a metade, seis mil.
Os governos federal e estadual começaram uma campanha para trocar o manufaturado de origem estrangeira por pescados nordestinos. Até se incentivou a população a consumir carne de baleia, o pobre mamífero marinho. Foi nesta época que se começou a valorizar gastronomicamente o caranguejo, até porque o quilo do bacalhau chegou a alcançar o dobro do preço da carne bovina.

Foi um pernambucano que percebeu esta virada de classe do bacalhau. Abelardo Barbosa, o Chacrinha, passou a jogar para a plateia peças grandes do peixe, disputado a tapa no auditório apesar do sal e do cheiro.

A partir da década de 1970, o bacalhau passou a figurar no Diario de Pernambuco nos suplementos femininos, como ingrediente para as receitas de Páscoa ou ocasiões especiais ao longo do ano. Já era nobre, não lembrando em nada seu passado popular.

Graças à sua forte colônia lusitana, o Recife figura entre os bons lugares do Brasil para se degustar um bom bacalhau. Para quem prefere prepará-lo em casa, em tempos de crise o peixe pode ser comprado de forma parcelada. Que seja de boa qualidade para o gosto ser bem duradouro…

Para quem se interessar por história, recomendo o livro Bacalhau – A história do peixe que mudou o mundo (Nova Fronteira), escrito pelo jornalista norte-americano Mark Kurlanski e lançado no Brasil em 2001.

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