Artes plásticas Exposição de Maurício Arraes revela a beleza do cotidiano nos subúrbios Com curadoria de Júlio Cavani, mostra conta com 30 telas e também comemora 41 anos de carreira do pintor

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 04/06/2019 14:22 Atualizado em:

Tela Cadeira Vazia e um Cachorro. A figura do cachorro é comumente apresentada no trabalho do artista. Foto: Maurício Arraes/Divulgação
Tela Cadeira Vazia e um Cachorro. A figura do cachorro é comumente apresentada no trabalho do artista. Foto: Maurício Arraes/Divulgação

A tela Farol, que retrata uma paisagem de Olinda, pode servir como obra introdutória para O silêncio do bairro, nova exposição do pernambucano Maurício Arraes na Arte Plural Galeria, localizada no Bairro do Recife. A torre de concreto em preto e branco quase passa despercebida na pintura de acrílico sobre papel, pois Maurício prefere dar enfoque às casinhas coloridas da periferia que rodeia a turística Cidade Alta. Essa perspectiva para o aspecto simples e corriqueiro do subúrbio brasileiro está presente nas 30 telas da mostra, que também comemora os 41 anos de carreira do pintor. A curadoria é do jornalista e crítico cultural pernambucano Júlio Cavani. A vernissage será nesta terça-feira (4), às 19h.

Aos 12 anos, o artista plástico foi morar na Argélia, no Norte da África, devido ao exílio do pai, o ex-governador Miguel Arraes, durante a ditadura militar. Voltou ao país em 1978 para morar no Rio de Janeiro, já contando com esse olhar distinto sobre os aspectos urbanos e da sociedade brasileira. Na mostra em cartaz, existem telas de cidades pernambucanas como Recife, Olinda e Brejo da Madre de Deus, além de Rio de Janeiro e Crato, no Ceará. Mas é quase imperceptível enxergar qual cidade serviu como inspiração para cada tela. É como uma iconografia geral de um Brasil realístico, com símbolos não-oficiais e cores vibrantes.

Tela Farol, citada no início do texto. Foto: Maurício Arraes/Divulgação
Tela Farol, citada no início do texto. Foto: Maurício Arraes/Divulgação
Maurício viveu em bairros turísticos do Rio, quando pintou paisagens paradisíacas da capital fluminense. Voltou ao Recife em 2009 e, atualmente, produz telas em um apartamento no bairro da Jaqueira, na Zona Norte. Mesmo vivendo em áreas nobres, sempre deixou fluir um prisma visual para retratar o subúrbio, incluindo feiras e carnavais. Em O silêncio do bairro, no entanto, não existem cenários caóticos ou aglomerações. O viés de serenidade contemplativa foi o fio condutor da exposição, que resgata telas de 1977 até as mais recentes, de 2019. A mostra foi nascendo entre conversas de Maurício Arraes com Júlio Cavani.

“O marasmo e o tédio ganham potência, já que carregam uma falsa invisibilidade, quando, na verdade, ocupam lugar no tempo e no espaço. É a presença de uma audiência libertadora que estimula uma meditativa busca por uma quebra nas convencionais hierarquias visuais”, explica o curador, em texto feito para a exposição. “Acredito que a mostra dialoga com o Brasil atual pela necessidade de perceber a beleza do corriqueiro e do invisível, em um momento em que os olhares estão voltados às telas de celulares, por exemplo”, ressalta Cavani, em entrevista ao Viver.

Mulher no Bar1. Foto: Maurício Arraes/Divulgação
Mulher no Bar1. Foto: Maurício Arraes/Divulgação
“As telas representam lugares onde passei, frequento e me interessam. Sempre procurei esse lado mais escondido das cidades, mostrar um certo abandono. É uma forma de revelar beleza em lugares suspeitos, mas sem um tom miserável”, explica Maurício Arraes, que desenvolve traços semelhantes desde quando começou a pintar, na década de 1970. “Estávamos no auge da pop arte, então deve ter alguma influência dessa escola, principalmente pelas cores vivas.”

Barbearia com fregueses, mesa de sinuca cheia de gente, menina correndo ao lado de uma galinha, mulher em um bar. São várias capturas do cotidiano. Os personagens mais comum são cachorros, como em Boboca do doces, Passeantes com cachorro, Cadeira vazia e cachorro ou Autoretrato. "Esses cachorros estão presentes por serem comuns na obra dele. Poderíamos não ter colocado nenhum, mas colocamos por ter a ver com a proposta", diz Júlio. "Para mim, são essas figuras que andam pelas ruas como se fossem invisíveis, mas que estão lá, meio alheias ao que está acontecendo. Talvez exista uma identificação com os cachorros, com essa postura de vida independente, sem ter dono", finaliza.

SERVIÇO
Exposição O silêncio do bairro, de Maurício Arraes
Onde: Arte Plural Galeria (Rua da Moeda, 140, Bairro do Recife)
Abertura: nesta terça-feira (4), às 19h, para convidados
Visitação: de amanhã até 10 de agosto, sempre de terça a sexta-feira, das 13h às 19h, e aos sábados, das 14h às 18h
Quanto: gratuito
Informações: (81) 3424-4431


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