Música Novo álbum do pernambucano China é um manual para tempos difíceis: 'O Brasil parou de sorrir' Disco chega como uma espécie de volta às origens, com participações Lucas dos Prazeres, Yuri Queiroga, Neilton, Andreas Kisser e Bell Puã

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 31/05/2019 11:16 Atualizado em: 31/05/2019 11:20

Foto: Pamella Gachido/Divulgação
Foto: Pamella Gachido/Divulgação
O pernambucano China aparece sem qualquer retoque na capa de seu novo álbum. Diante de um fundo branco, uma mão que usa paletó e relógio dourado tenta esboçar algum sorriso no semblante fechado do cantor. A metáfora assimila uma força invisível, mas poderosa, que fomenta positividade quando a bolsa de valores bateu recordes no início de 2018. A mesma mão que fixou o slogan “Não pense em crise, trabalhe” em outdoors pelas estradas brasileiras em 2016. Mas China sabe que não está tudo bem. Expressar essa realidade é o principal objetivo de Manual de sobrevivência para dias mortos (selo Pedra Onze), disponível nas plataformas digitais a partir desta sexta-feira (31).

O olindense de 40 anos começou a carreira musical no final dos anos 1990 com a banda Sheik Tosado, que surgiu como uma alternativa mais “pesada” aos grupos da época. Ao misturar frevo e maracatu com hardcore e punk rock, conseguiu projeção nacional e chegou a cantar no Rock in Rio de 2001. O grupo se dissolveu e o vocalista seguiu carreira solo, dosando pop, rock e brasilidades em quatro discos de estúdio. Ainda foi ser VJ da extinta MTV Brasil, entre 2011 e 2012.

O novo álbum chega como uma espécie de volta às origens. Afinal, tempos mais radicais exigem sonoridades mais pesadas, letras mais críticas e diretas. E, apesar disso, o cantor não abre mãos das novidades e se reinventa ao deixar a bateria de lado para focar nas percussões contundentes do também olindense Lucas dos Prazeres. A produção geral foi de Yuri Queiroga, amigo de longa data que assumiu violão, guitarra, baixo, programações e samples. O intérprete se aventura na programação de beats, baixo e órgão.



Nas letras, críticas fugazes sobre a situação do país. A faixa Vivo? introduz o disco com um maracatu-rock sobre o medo da violência urbana. Selvagem brinca com o teor primitivo que as discussões políticas e sociais ganharam: “Música para os macacos, dance comigo selvagem”. Em Consumo, um samba-rock eletrônico exprime a pequenez do cidadão comum diante da soberania do capitalismo messiânico. Também existem os momentos mais lentos, como as praianas Ofertório e Mareação, mas as composições seguem com verdades inconvenientes.

Também conta com várias participações especiais. O trombone de Nilsinho Amarante está em Subdesenvolver e O selvagem. Fascismo tupinambá tem a parceria de Neilton, do Devotos, um sonho realizado para China. Essa faixa, inclusive, evoca um punk no melhor estilo Cabeça dinossauro, dos Titãs (1986), tentando provocar ira da ultradireita nacionalista. Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura, participa em Frevo e fúria. A parceria mais potente talvez esteja em Moinhos do tempo, com versos da poetisa pernambucana Bell Puã, vencedora da competição nacional de Slam em 2017: “Que status eu posso entender mesmo quando a TV me fizer companhia? / Que o sonho americano não seja pesadelo da América Latina”.

ENTREVISTA - China, cantor
Foto: Pamella Gachido/Divulgação
Foto: Pamella Gachido/Divulgação
Como surge Manual de sobrevivência em tempos difíceis?
Foi de forma muito sossegada, em 2018, quando eu e o Yuri Queiroga começamos a produção. Ele tem ideias brilhantes e resoluções incríveis. Me instigou a escrever um disco temático. O estalo foi a palavra “sobreviver”. Começamos a compor aqui em São Paulo, depois fomos para Olinda gravar a percussão com Lucas dos Prazeres. O nome do disco acabou vindo depois, tentando dialogar com uma população que a cada dia ficava mais triste e revoltada. O Brasil é um país que parou de sorrir, fazemos isso com dificuldade hoje.

Muitas vezes, artistas preferem apostar em críticas nas entrelinhas. Acha que esse é o seu álbum “assumidamente” mais político?
Esse álbum não tem nada nas entrelinhas. É o que vemos todos os dias na TV e jornais, todas as horas. As pessoas estão cada vez mais falando sobre política e isso é ótimo, justamente para que não entreguemos o voto a troco de banana. Eu, enquanto artista, quero relatar o que o país está vivendo e o que escuto por aí.

Essa crítica explícita e revolta era comum no rock dos anos 1980. Acha que, por isso, o disco soe meio retrô?
Não vejo o rock como uma coisa retrô. O rock está sempre por aí e, em tempos sombrios, ele sempre volta. E agora com outro grande aliado que temos: o rap. Mas sim, eu volto para as origens. Me inspirei nas bandas que me influenciaram lá atrás. O Yuri ficava colocando coisas antigas para nos estimular. E, apesar disso, o disco nem tem tantos riffs de guitarra assim. Os que estão lá são muito certeiros e a voz passeia por esse caminho.

Falando em hip hop, o verso da Bell Puã (que não é rap, mas se aproxima) é impressionante. Como aconteceu o convite?
Eu vi aquele vídeo dela que viralizou no Facebook em 2017. Queria alguém tipo ela, mas não conseguia pensar e quem me deu o toque foi minha esposa. A Bell adorou o convite e trouxe esse poema fortíssimo, absurdo e cortante, que chega a incomodar. E tem as outras participações: Natália Matos, Uyara Torrente e Andreas Kisser. Eu preferi pegar pessoas de diferentes regiões para dar uma voz plural. Vem de uma facilidade que eu tenho de circular entre vários gêneros e um reflexo da quantidade de gente que está junto, independentemente do estilo musical.

Algo nesse tom crítico te fez sair da zona de conforto?
Acho que foi um disco que me fez estudar bem mais a história nacional. Em Fascismo tupinambá, por exemplo, citei trechos de Memórias do cárcere, do Graciliano Ramos. Percebi também, ao assistir discursos do Getúlio Vargas, muitas coisas em comum entre a fala dele e as de Bolsonaro. O Brasil sofreu três golpes pelo medo do comunismo. Pura balela. É impressionante como somos enganados de tempos em tempos. Também fiz referência a um poema da norte-americana Elizabeth Bishop. Ela estava no Brasil no dia 1º de abril de 1964, e, ao ouvir o rádio, achou que havia uma grande revolução em curso. Ao olhar pela janela, só viu o Brasil de sempre. Daí veio o trecho: “A gente vive em uma insuportável alegria de viver.”

O álbum começou a ser produzido no começo de 2018. Bolsonaro só vence a eleição em outubro. A vitória dele mudou algo no resultado final do disco?
Tudo já estava pronto antes da eleição, e isso serve para vermos como a arte pensada ontem continua culminando tudo o que sentimos hoje. Mas não é só o Bolsonaro que é problema, viemos do governo Temer, que já aniquilou sonho de jovens, pobres. O Brasil só vem piorando desde o impeachment, por uma crise forjada pelo mercado, política e mídia. Não estou fazendo partidarismo, pois o PT merece muitas críticas. Mas hoje estamos num contexto mais assustador. Um cara como o Reinaldo Azevedo, que criticou o PT ferozmente durante anos, disse que nunca foi tão ameaçado como agora. Nos afundamos em um discurso de ódio que deu voz a um bando de maluco. E não é isso que vai tirar o país da miséria, pois falta sensibilidade e olhar amplo. E nós, compositores, temos isso por sermos cronista da realidade. A única arma que a gente tem é a arte, e sabemos o quanto ela é transformadora.

Seu álbum é um manual. Dê uma dica para os brasileiros lidarem com os momentos difíceis que podem estar por vir.
Educação e informação. São as duas coisas que impedem caras como o Bolsonaro de chegarem ao poder. A internet está aí cheia de dados, mas não podemos cair na primeira manchete que aparece. Se fôssemos um país educado e informado, políticos como ele nem existiriam na nossa política. E ainda falta muito para chegar lá, para que o filho da faxineira e do empresário tenham o mesmo acesso, direitos e garantias.


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