Música Álbum de estreia do pernambucano Carlos Ferrera é 'música para dançar pensando' Daquilo que o Coração Come aposta num cruzamento arrojado da MPB com black music gringa e beats eletrônicos

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 27/05/2019 10:04 Atualizado em:

Carlos Ferrera escreve poesias desde pequeno e iniciou estudos vocais no Conservatório Pernambucano aos 17 anos. Foto: Júlio Morais/Divulgação
Carlos Ferrera escreve poesias desde pequeno e iniciou estudos vocais no Conservatório Pernambucano aos 17 anos. Foto: Júlio Morais/Divulgação
Nos últimos anos, uma nova geração de cantores concebeu o que vem sendo chamado de “música pop brasileira”, conceito guarda-chuva para sonoridades que combinam estéticas globais e tradições regionais com métodos bem variados. O Recife tem alguns representantes e, neste mês, ganhou mais um com álbum de estreia do cantor e compositor pernambucano Carlos Ferrera. Daquilo que o coração come aposta num cruzamento arrojado da MPB com black music gringa e beats eletrônicos, resultando em uma “música para dançar pensando”, como tenta definir o artista, em entrevista ao Viver.

A direção artística é do próprio Ferrera, com direção musical de Guilherme Assis, conhecido por participar dos últimos álbuns de pernambucanos como Barro, Dirimbó, Mariana Aydar e Julia Konrad. A produção é independente, realizada com incentivo do Funcultura e gravações nos estúdios Zelo, Mr. House e Gusdel. As colaborações especiais são de Jam da Silva, Júlio Morais e Barro, que esteve ao lado do intérprete desde os primórdios. 

Capa de Daquilo que o Coração Come. Foto: Júlio Morais/Divulgação
Capa de Daquilo que o Coração Come. Foto: Júlio Morais/Divulgação
Carlos Ferrera escreve poesias desde pequeno e iniciou estudos vocais no Conservatório Pernambucano aos 17 anos. Lá, conheceu nomes como Hugo Linns e o produtor Juliano Holanda. Também tem carreira como ator na capital pernambucana, participando de peças como Auto das portas do céu (de Ronaldo Correia de Britto), e filmes como Amor, plástico e barulho (dirigido por Renata Pinheiro). Daquilo que o coração come marca um novo momento nessa trajetória artística.

“Como tenho a vivência do Conservatório e participações como backing vocal em estúdio e shows ao vivo, carrego bagagem maior da MPB. O que trago desse gênero são as letras, pois sou bem melódico e dou valor às interpretações. Os meninos trouxeram essa carga do eletrônico, que na verdade eu chamaria de eletroacústico”, explica. “Para mim, essa característica do eletrônico foi o principal desafio. Eu era acostumado a entrar na sala de ensaio e ter todos músicos presentes. Com esse álbum, passei a lidar com outro tipo de convivência musical, que não é orgânica, e isso muda tudo.”

As composições, embora tenham temáticas variadas, são costuradas por um tom reflexivo. Carlos discute sobre amor, fé e sociedade, mas evitando ser explícito e apostando nas entrelinhas. Negro, ele afirma levantar a bandeira da causa, mas não assume caráter panfletário. Prefere apostar nesse poder que a poesia tem de alcançar o senso das pessoas através da subjetividade. “Ser artista independente é assumir um caminho pessoal. É dizer quem é, encontrando os seus verdadeiros elos e parcerias, e não se deixando levar por opiniões taxativas. Independência, para mim, é ser coerente, livre, resistente e agregador.”

A canção Dendeia (composição de Barro e Márcio Oliveira) é uma das que servem para sintetizar a personalidade sonora e temática do disco. Tem um pé na cultura popular, sobretudo no refrão de cunho afro e regional, mas sem negar os sintetizadores que costuram o álbum. A faixa-título passeia pela MPB, com instrumentação arrojada e vocais (incluindo os de apoio) que remetem à black music feita no país.

Imagem da contracapa. Foto: Júlio Morais/Divulgação
Imagem da contracapa. Foto: Júlio Morais/Divulgação
O álbum ainda consegue usar o eletrônico em uma espécie de gradação, indo do jovial e vibrante ao lúgubre e soturno. A faixa Mais e melhor traz batidas sintéticas em caráter dançante, enquanto A esmo (feita com Júlio Moraes) mostra um tom mais “obscuro”. “É um leque de possibilidades de um mundo pop que está ganhando outras cores. Estamos com essa nova cena pop pernambucana, que traz o refrão chiclete, a festa à noite, mas propõe equilíbrio entre esse hibridismo complexo de linguagens”, diz o músico, que adianta estar no processo de produção de quatro videoclipes. Disponível nas plataformas de streaming, uma versão física também será lançada em breve.

Por também ter experiência como dançarino (já integrou o grupo Experimental, Compassos - Cia de Dança e Grial), Carlos leva toda essa bagagem para o palco. “Carrego essa carga de dramaticidade ligada ao corpo, indo do meu comportamento até as posições dos dançarinos. Tenho essa performance bem teatral mesmo. Sou um cara dramático (risos)”, afirma.

Ouça o single O Que Me Faz Bem:




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