Jazz Venerados no exterior e anônimos no Brasil, Flora Purim e Airto Moreira fazem show no Recife

Por: Juliana Aguiar - Diario de Pernambuco

Publicado em: 26/04/2019 18:30 Atualizado em: 26/04/2019 18:42

Foto: Victor Kobayashi/Divulgação
Foto: Victor Kobayashi/Divulgação
“O músico brasileiro mais influente fora do país desde Carmen Miranda, João Gilberto e Tom Jobim está longe de ser profeta em sua terra”, escreveu o jornalista Chema García Martínez, em matéria publicada no El País, em 17 de dezembro de 2017, intitulada “Airto Moreira, o músico que o mundo venera e o Brasil pouco conhece”. Airto fez carreira no exterior como percussionista e baterista. Tocou com o antológico trompetista Miles Davis, o pianista Chick Corea, entre outros. No Brasil, sua parceira de palco e vida é a cantora carioca Flora Purim, uma das maiores vozes do jazz nacional. Ambos - que são casados e têm a mesma idade: 77 anos - se apresentam amanhã na 6ª edição do RioMar Jazz Fest, às 21h. Antes, às 20h, tem show do Mr. Trio. 

O evento, gratuito e realizado na praça de alimentação do shopping do Pina, na Zona Sul do Recife, continua no domingo, com a Uptow n Blues Band & Friends (18h) e Patricia Marx IN Jazz (19h), e na segunda- -feira, com Vintage Pepper (19h), Folakemi com Victor Biglione (20h) e Xime Monzon & Netto Rockfeller (21h). A volta do percussionista a Pernambuco lança o olhar a uma memória também pouco conhecida aqui: o disco Code: Brasil - Target: Recife, gravado pelo selo britânico Real World Studios em 1997, nunca lançado no país.

Para a produção, Airto imergiu por três meses na cultura nordestina, em contato com o forró, maracatu, ciranda e obras de Ariano Suassuna. O trabalho tem participação do Mestre Salustiano, Tavares da Gaita, Banda de Pífanos de Caruaru e Maracatu Nação Erê. “O Airto é louco por Luiz Gonzaga e as sonoridades do Nordeste, e tinha o desejo de mostrar esse lado do Brasil mundo afora, que até então só exportava a bossa nova”, explica Flora Purim, em entrevista ao Viver, enquanto Airto a acompanhava em um silêncio tímido do outro lado da linha.

O músico pernambucano Giovanni Papaleo assina a coprodução do álbum. “Sou um grande fã de Airto, o conheci em 1995, trocávamos correspondências, telefonemas e fax. Dois anos depois, nos encontramos pessoalmente e o convenci a produzir em Pernambuco o disco que ele estava se preparando para realizar no Brasil. Anteriormente, o Code: Brasil estava sendo pensado para a Bahia”, conta Papaleo, baterista da banda Uptown Blues Band, curadora do evento.

Foto: Victor Kobayashi/Divulgação
Foto: Victor Kobayashi/Divulgação

Estimulado pela mãe, o pequeno Airto, morador da vila de Itaiópolis, em Santa Catarina, ingressou na música através do canto. Aos 6 anos, já ganhava concursos de música, cantando e tocando bateria. Aos 16, mudou-se para São Paulo e passou a se apresentar em casas noturnas. “Hoje em dia, Airto é considerado o deus da percussão. Ele foi pioneiro da percussão miscelânea, assim como Naná Vasconcelos. Os dois mostraram para o mundo que não é só pandeiro e bandolim que compõem o ritmo. Música é qualquer som encontrado no dia a dia e nas ruas”, afirma Flora.

O palco do músico é como um jogo de memória embaralhado por objetos convencionais e inusitados, de maracas a chinelos. Aluê (2018), primeiro disco de Airto feito em solo brasileiro, é o trabalho mais recente do músico e conta com participação de Diana Purim, filha do casal.


CAMINHOS CRUZADOS
Flora, filha de um violinista e uma pianista pernambucana, ambos integrantes de orquestra sinfônica, cresceu no Rio de Janeiro ouvindo música clássica e começou a tocar violão e piano desde cedo. Aos 18 anos, trabalhou no Bottles Bar, então centro musical da cidade. Seu trabalho foi influenciado por Billie Holiday, Dinah Washington, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan.

No início dos anos 1970, integrou o conjunto Return to Forever, que excursionou pelos Estados Unidos. Entre 1974 e 1977, foi eleita por críticos quatro vezes consecutivas como a melhor cantora de jazz dos EUA. Teve parcerias com Carlos Santana, Hermeto Pascoal e Chick Corea, admirados com sua extensão vocal e capacidade de improvisação.

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Os caminhos de Flora se cruzaram com os de Airto durante apresentação num bar em São Paulo há 54 anos e desaguou em um relacionamento musical e afetivo. Na época, Airto era baterista, posição que acabou abandonando após um convite de Geraldo Vandré para integrar o Quarteto Novo, junto com Hermeto Pascoal, Théo de Barros e Heraldo do Monte. “Ele não queria ser reconhecido como ritmista, queria criar sons a partir das sonoridades que encontrava na rua”, diz Flora. O casal se mudou para os EUA em 1967 e, em Nova York, alcançaram amplo sucesso no jazz internacional.

“Minha intenção era passar um mês, mas fui conhecendo músicos famosos e comecei a achar que ia desenvolver mais do que se ficasse no Brasil, principalmente por conta da censura que afligia os artistas no regime militar vigente na época. Então, eu aproveitei todo meu conhecimento de música brasileira e isso se tornou meu diferencial frente às cantoras americanas”, avalia Flora.

Após ter passado meio século nos EUA, Flora acredita que, se tivesse nascido décadas mais tarde, a viagem ao exterior não seria tão necessária. “Hoje em dia, o mundo inteiro toca jazz. O Amazonas, por exemplo, carrega uns dos maiores festivais de jazz, com músicos locais e participação de tribos indígenas.”


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