Música Ratos de Porão retrocede 30 anos para abordar o Brasil de hoje

Por: Juliana Aguiar - Diario de Pernambuco

Publicado em: 20/04/2019 14:14 Atualizado em:

Foto: Wander Willian/Divulgação
Foto: Wander Willian/Divulgação

“Cuidado com o poder do regime militar / O tempo vai retroceder / O DOI-CODI vai voltar no Brasil, Brasil, Brasil”. Os versos da música Retrocesso, do disco Brasil do grupo de punk e hardcore Ratos de Porão, gravado em 1989, ponderavam sobre o cenário de abertura política que libertava o país do regime militar, encerrado em 1985. Depois de 30 anos, o grupo reacende a problemática com a turnê de aniversário do álbum, integrando a programação do Abril Pro Rock, que acontece neste sábado no Baile Perfumado (Rua Carlos Gomes, 390, Prado).

 

“Quando a gente falava do cuidado com o poder, com a ditadura, a gente tava em plena redemocratização. Apesar de tensionar, achávamos que não viveríamos mais o regime. Agora com o Brasil no caminho do abismo, a gente tem medo. Chega a ser amedrontador ver como está o país agora”, revela Jão, em entrevista ao Viver. O guitarrista integra a banda ao lado de João Gordo (vocal), Boka (bateria) e Juninho (baixo). A apresentação no festival faz parte de uma série de shows comemorativos que serão realizados pelo país com o disco tocado na íntegra.

 

Brasil é o quarto álbum do Ratos de Porão, considerado por vários fãs como o melhor da carreira e responsável por abrir passagem para a banda no circuito mundial. O disco foi produzido em Berlim por Harris Johns através da gravadora Eldorado e disponibilizado em português e inglês. Para isso, foi preciso contratar um tradutor que auxiliou João Gordo na missão de cantar as letras em outra língua. “Esse disco é marcante na carreira da banda. A gente gravou longe de casa, experimentou sons novos, investiu em outro idioma. Foi um desafio muito grande”, diz Jão.

 

Na época, a obra foi feita com uma crítica social severa e direcionada aos governantes do Brasil, com uma sonoridade única, reunindo elementos do punk-rock com o heavy metal. Os versos cantam a miséria, a violência policial, a desigualdade social e a corrupção. 


Jão. Foto: Wander Willian/Divulgação
Jão. Foto: Wander Willian/Divulgação
 
“O disco permanecer atual é algo que a gente nunca esperava. Na verdade, parece mais importante agora do que foi na época. Atualmente, eu vejo o Brasil dividido entre esquerda e direita de uma forma mais acentuada do que antigamente”, afirma. Aids, pop e repressão, Amazônia nunca mais e Beber até morrer estão entre as canções do repertório. As letras apresentam temas como o desmatamento na amazônia e resistência, em evidência no debate político do país.

Apesar da temática atual, o clima nos palcos será de nostalgia. “Por nós agregarmos punk, rock, hardcore e heavy metal, acabamos formando um público de perfis, gostos e idades bem variadas. Sempre tem um pai que leva um filho a nossas apresentações e essa troca é massa. É como se um filme passasse na cabeça de quem acompanhou música a música. A nossa história continua pulsante.”

Nos últimos meses, o quarteto passou a se dedicar ao resgate das 18 canções do trabalho, que estavam de fora do setlist habitual. “Normalmente, a gente apresenta uma seleção com nossas músicas mais tocadas, estamos experimentando essa ideia de tocar um disco todo ao vivo”, explica Jão.

 “Tocar no Recife é sempre bom, vamos ver se vão gostar dessa nova proposta do show. Esperamos que as pessoas ouçam, entrem no clima e reflitam sobre o período que estamos vivendo.” Motivada pela turnê, a banda está idealizando um disco para ser lançado no próximo ano. “Nosso último trabalho já tem cinco anos e esse período que estamos vivendo é muito propício para novas composições”, ressalta o músico.

 

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