entrevista 'Jornais regionais têm futuro promissor', diz consultor de mídia espanhol Javier Errea

Por: Vandeck Santiago - Diario de Pernambuco

Publicado em: 03/04/2019 11:49 Atualizado em:

Autor lançou dois volumes de El diario o la vida - Una defensa a tiros de los periódicos y del periodismo, onde fala da comunicação na era digital.. Foto: Divulgação
Autor lançou dois volumes de El diario o la vida - Una defensa a tiros de los periódicos y del periodismo, onde fala da comunicação na era digital.. Foto: Divulgação
Para vocês terem uma ideia da paixão que o professor, jornalista e consultor de mídia Javier Errea tem pelos jornais, basta ver o título do livro que ele acaba de lançar, na Espanha: El diario o la vida - Una defensa a tiros de los periódicos y del periodismo (O jornal ou a vida - Uma defesa a tiros dos jornais e do jornalismo). É o segundo que ele lança com este título. O primeiro volume saiu em 2015. O segundo é o que está sendo lançado agora. Um e outro reúnem textos dele publicados em seu blog, Erreadas (blog.erreacomunicacion.com) - um dos raros espaços na internet, na área de comunicação, em que a profecia “o fim dos jornais está próximo” nunca aparece. 

Não aparece porque Errea não compartilha dessa profecia. Na verdade, ele a combate. Ele vê futuro nos jornais, mas sem que estes se tornem meros prolongamentos do digital  - ou, como ele diz, sem que se tornem meros jornais com pinta de newsletter. 

Peguemos um exemplo: a integração das redações, impresso + digital, uma tendência apregoada como inevitável. Passo a palavra para Errea. Trata-se, em sua opinião, de um “medicamento paliativo”,  que “não produz um jornalismo melhor”, uma manobra resultante do nervosismo de uma indústria que quer cortar custos. Outro exemplo: quando todos dizem que o script obrigatório a seguir é o de ser multimídia, ele defende outro caminho: o de ser monomídia. Para ele, multimídia é “uma esquizofrenia” que querem nos impor e que nos leva “a uma piora da qualidade” do jornalismo. Defende que “há muitas maneiras de integrar, não apenas uma”, e que também é possível não fazer a integração - depende de cada jornal, do objetivo que se tem. 

Sua defesa da “monomídia” não significa preponderância do papel sobre o digital, nem postura anti-internet. Não se trata de “nostalgias inúteis” nem de desconsiderar que a tecnologia mudou todo o cenário que havia antes e é necessário adaptar-se. É da natureza do veículo que ele fala. Se é impresso, foco no impresso. Se é digital, foco no digital. 

Por aí já se vê que Javier Errea não é um consultor de mídia tradicional. É um autocrítico entre seus pares. Até se bate contra gurus que vendem soluções mágicas para os jornais baseadas em supostas inovações que consideram empresas de jornalismo como uma loja. Não funciona; quem aposta nisso vai jogar dinheiro fora achando que está adotando a última tendência da moda, afirma. 

É possível discordar dele, mas convém ouvir o que tem a dizer. Errea é um especialista da comunicação, referência internacional na sua área. Trabalhou em jornais (entre outros cargos, foi redator-chefe do Diario de Notícias, da Espanha). É professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra (Espanha). Ganhou quatro prêmios da Society for News Design (SND) de melhor design de jornais. É presidente do capítulo espanhol da SND e coordenador dos prêmios de infografia Malofiej. Fundou e dirige a Errea Comunicación, empresa de consultoria estratégica, editorial e de design para meios impressos e digitais, responsável por projetos em dezenas de diários de todo o mundo, como La Nación (Argentina), El Universal (México), Libération (França), Expresso, Jornal i e Jornal de Notícias (Portugal), The Independent e The Scotsman (Reino Unido), La Tercera (Chile), El Nuevo Día (Porto Rico), Aamulheti o Turun Sanomat (Finlândia), Dagens Nyheter (Suécia) e Bergens Tiende (Noruega), entre outros. Exemplos de grandes publicações, mas a Errea Comunicación também tem veículos locais e regionais entre seus clientes.

Expert do design, Errea é um obstinado defensor do “contenido” (conteúdo). Não importa se a plataforma é digital ou impressa - o rei é o conteúdo. De qualidade. Que conte boas histórias. Não há nada mais inovador que contar uma boa história, considera ele. E tem ainda o valor da marca, “insubstituível”. 

Nesta era de avalanche de informações, que se transformam mais das vezes em ruídos, há um espaço para os jornais, e não só para os grandes. “Os jornais locais e regionais têm um futuro promissor”, diz ele, num alento para este velho repórter de província, empregado de um jornal regional. “A razão é simples: a informação que eles produzem não pode ser produzidas por ninguém melhor que eles. Isso os torna essenciais - especialmente se forem capazes de assumir esta responsabilidade e não se conformar com o que tradicionalmente têm feito.” 

A Era Digital é plena de desafios, mas tem suas maravilhas - me permitiu, por exemplo, adquirir os dois livros de Javier Errea (disponíveis em www.erreacomunicacion.com/tienda e www.amazon.es), conversar com ele e entrevistá-lo. Ele na Espanha; eu, no Recife. No plano físico ou virtual, o que vale é a comunicação.

"O que o público local exige é qualidade"
Javier Errea // consultor de mídia

Que modelo deve buscar um jornal regional, que fala para um público menor e não tem as mesmas condições de um jornal internacional? 
Apesar de sermos (Errea Comunicación) conhecidos por projetos feitos para grandes jornais, eu estou particularmente satisfeito com os projetos que desenvolvemos em jornais locais e regionais, que são os mais próximos dos leitores e dos cidadãos. Estou convencido de que jornais locais e regionais têm um futuro promissor. O motivo é simples: as informações produzidas por eles não podem ser produzidas por ninguém mais nem melhor que eles. Isso os torna imprescindíveis, especialmente se forem capazes de assumir esta responsabilidade e não se conformar com o que tradicionalmente têm feito ao longo dos anos. O desafio é tornar-se capaz de ser o The New York Times de suas áreas de influência. Isto significa aspirar à excelência e colocar todos os meios disponíveis para alcançá-la. O que o público local exige é qualidade. Tenha em mente que hoje, a partir de um telefone celular, qualquer pessoa tem acesso ao melhor dos melhores, em qualquer lugar do mundo, e é inútil - porque condenado ao fracasso - tentar enganá-la ou conformá-la com algo medíocre. A imprensa local e regional pode fazer muitas dessas coisas que os grandes fazem. É uma questão de priorizar, de ter coragem, de mudar modelos jornalísticos obsoletos e substituí-los por outros mais contemporâneos. Apenas estes têm possibilidades em um mundo incerto como o que vivemos, com audiências ao mesmo tempo infiéis e exigentes.  

A realidade atual dos jornais é de queda de publicidade e leitores. O senhor crê que o jornal em papel ainda tem futuro?
Os jornais impressos ainda detêm a maior parte do faturamento da indústria jornalística. No The New York Times, por exemplo, o impresso ainda é metade do faturamento. Tanto assim que sua estratégia, radicalmente digital, também cuida do impresso através de produtos especiais da mais alta qualidade que só são encontrados neste suporte, e não na web.  O impresso, por sua natureza, é uma joia que você tem que cuidar e saber diferenciar. Se o que fazemos é assimilar as duas plataformas (impresso digital), aí sim, estamos matando o impresso. O impresso requer equipes selecionadas para ele, para ser dotado de uma exclusividade que o digital não possui, ou pelo menos não no momento. Em outros jornais menores, onde ainda é muito difícil gerar renda digitalmente ou convencer o público a pagar pelo conteúdo na internet, o suporte impresso continua sendo a chave. Para mim, o importante é saber dimensionar as coisas. Você tem que desistir das velhas estruturas gigantes e saber o que é possível  fazer com equipes menores e sustentáveis. Não podemos continuar fazendo o que fazíamos antes.  Em um mundo líquido ou quase gasoso, porque isso é o digital, o valor do físico, do que pode ser tocado, é enorme: como um objeto em si e como um produto que também contribui para uma melhor ordem mental e uma maior compreensão das coisas. Não sou eu quem diz isso, são estudos neurológicos e cognitivos. 

É possível a um jornal optar por não fazer a integração de sua redação (impresso digital)? 
Claro que é possível! Se você perceber, tudo o que está acontecendo no mundo é apenas um sistema de tentativa e erro. Há muitas maneiras de integrar, não apenas um. E também se pode fazer a opção de não integrar. Tudo depende de cada jornal, de cada mercado, e sobretudo do objetivo que cada um tem. 

Como deve ser a relação de um jornal regional com a internet? 
É um assunto complicado. A maioria dos jornais regionais que conheço estão tendo problemas de rentabilidade em suas operações digitais. Mesmo as grandes marcas não seguem estratégicas idênticas. O que se deve ter é uma visão e uma estratégia claras, não apenas seguir as modas. Em um meio de comunicação, todas as plataformas fazem parte do mesmo maquinário.


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