Literatura Livro de Lima Trindade questiona a utopia de paraíso

Por: Viver/Diario - Diario de Pernambuco

Publicado em: 02/04/2019 12:21 Atualizado em:

Foto: Marcelo Frazão/Divulgação
Foto: Marcelo Frazão/Divulgação
As margens de um pretenso paraíso em construção são, para a maioria dos personagens do novo livro de Lima Trindade, uma alusão ao lugar que ocupam na sociedade. A obra do escritor brasiliense radicado em Salvador distribui, a princípio, seus três protagonistas em cidades distintas: Juazeiro, Rio e Brasília. As margens do paraíso, lançado pela editora Cepe, termina por unir personalidades tão distintas, mas muitas vezes com tanto em comum, em torno da então cidade-símbolo da esperança dos brasileiros em busca de realização pessoal, financeira e, principalmente, da sensação de ser parte integrante da história do seu país.

Um cenário poucas vezes visitado na literatura nacional. Na primeira parte, as vidas de Leda, Zaqueu e Rubem transcorrem no período da adolescência e juventude, permeadas por lembranças da infância. Leda, pernambucana de Petrolina, narra as desventuras que a fizeram passar a ser cuidada pelo padrinho e a esposa dele, em Juazeiro, onde transita em uma casa habitada por moradores com um prestígio social ao qual ela situa-se à margem, como uma “quase”, “praticamente” da família à qual serve, na condição de escrava.

Rubem, em meio a paixões mal resolvidas, discos de Elvis Presley e um emprego burocrático desprovido de emoções ou perspectivas, sente-se, aos poucos, tentado a compactuar do destino do tio Mauro, única pessoa de quem se sente realmente próximo, devido à afinidade deste com seu falecido pai. Em cartas, Mauro exalta os privilégios de fazer parte da construção de Brasília, para dali a breves dois anos.

Na obra, Brasília é palco de uma história de sobrevivência e luta. Foto: Cepe/Divulgação
Na obra, Brasília é palco de uma história de sobrevivência e luta. Foto: Cepe/Divulgação
Zaqueu, por sua vez, apesar da situação financeira privilegiada em relação aos demais, aparenta um comportamento aberto e libertário, embora um tanto quanto obsessivo. Sofre um trauma, entretanto, após um acontecimento trágico acontecido com seu único amigo verdadeiro e que atribui, de alguma forma, ao próprio pai. Empreende, então, uma busca com o objetivo de vingança no sentido de superá-lo profissionalmente. 

Na segunda parte, os três protagonistas, assim como Mauro, estão em Brasília e o destino se encarrega de aproximá-los. Todos, entretanto, não são mais os mesmos. Leda já nem utiliza o mesmo nome e acaba resvalando para um destino compartilhando pela maioria das mulheres locais, enquanto Rubem se torna um idealista, e Zaqueu, um empresário inescrupuloso. Embora esta transição temporal deixe uma certa lacuna na narrativa, o narrador oferece dados e informações que permitem ao leitor o preenchimento da mesma. Em comum ao trio, o amor pela arte em variadas manifestações e um final que nenhum deles poderia supor. 

A história dos personagens se desenrola em um panorama onde também é abordada a exploração do trabalho em todo o processo de construção da capital federal, os movimentos trabalhistas, a falta de organização financeira dos funcionários e a consequente ligação forçada a que se tornam submetidos, junto aos que sabem explorar esta falta de capacidade de lidar com seus próprios vícios e fraquezas. Uma obra de ficção ambientada em um cenário real e em vidas que poderiam, sim, ser bastante providas de realidade. Lima Trindade nasceu em Brasília e vive em Salvador. É editor e mestre em Letras pela Universidade Federal da Bahia, além de autor de outras quatro obras.


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