Literatura Clássico de Silviano Santiago, lançado há 40 anos, ganha edição ampliada pela Cepe Uma Literatura Nos Trópicos traz ensaios críticos cada vez mais atuais sobre a América Latina

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 02/04/2019 11:19 Atualizado em: 02/04/2019 11:29

Foto: Silviano Santiago/Divulgação
Foto: Silviano Santiago/Divulgação
Uma literatura nos trópicos, livro do professor e escritor mineiro Silviano Santiago, foi pouco compreendido na época do lançamento, em 1978. A proposta do intelectual, vencedor de três prêmios Jabuti (1982, 1993 e 2017), um Machado de Assis (2013) e um Oceanos (2015), consistia em reunir uma série de ensaios críticos sobre a cultura latino-americana, usando nomes como Machado de Assis, Eça de Queiroz e Caetano Veloso para refletir sobre a identidade da região, fugindo de perspectivas imperialistas ou colonialistas. A publicação só passou a despertar interesse do meio acadêmico após a redemocratização e, atualmente, é considerada canônica e multidisciplinar, tendo influenciado as áreas de sociologia e comunicação. Seu aniversário de 40 anos foi comemorado em diversas universidades pelo país. 

Justamente por essa relevância que uma nova edição (R$ 60, p. 369) foi lançada pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), sob o selo Suplemento Pernambuco, na última semana. “Santiago estava olhando para as ruas, não apenas para a teoria literária, sendo diverso entre uma série de coisas. Ele estava trafegando entre a biblioteca e a praia, isso é o que torna a obra singular”, destaca ojornalistapernambucano Schneider Carpeggiani, editor do selo Suplemento Pernambuco e responsável pela edição do relançamento ampliado, com cinco ensaios que foram retirados da edição original. Na última parte do livro, há ainda textos escritos pelos professores da PUC-RJ Eneida Leal Cunha e Fred Coelho e pelo sociólogo André Botelho - as diferentes áreas servem para ressaltar o teor multidisciplinar da obra.

Entre os legados de Uma literatura nos trópicos, destaca-se o conceito de "entre-lugar", do ensaio O entre-lugar do discurso latino-americano. "É uma teoria que ele pensa o lugar do latino-americano. Ele traz a ideia que os latino-americanos ocupam um lugar diferente. Nós estamos sempre em um lugar de estranhamento e o mundo não acontece nessa diferença, e sim entre as coisas", explica Schneider.

Capa de Uma Literatura nos Trópicos. Foto: Cepe/Divulgação
Capa de Uma Literatura nos Trópicos. Foto: Cepe/Divulgação

Carpeggiani também ressalta o ensaio Caetano Veloso enquanto superastro, em que Santiago propõe um olhar acadêmico para o fenômeno do popstar, um viés que não era comum naquela época. "Não era de bom tom um intelectual falar desses temas. Esses textos são pioneiros aqui no Brasil da academia em tratar de temas de cultura popular. Hoje a academia fala sobre popstar, sobre brega. O próprio Silviano explica aqui o que é desbunde no livro e como era viver no chamado 'vazio cultural' do começo dos anos 70".

Por falar de questões identitárias latinas, o livro segue atual. No entanto, um dos ensaios se sobressai por sua contemporaneidade: Retórica da verossimilhança, que analisa a obra de Machado de Assis, mais especificamente Dom Casmurro. Usando de detalhes do enredo desse clássico, Silvano reflete que nós não estamos preocupados com a verdade e que, na verdade, é muito mais fácil acreditar no boato, porque o boato soa verossímil. "Em determinada parte de Dom Casmurro, Bentinho encontra um bilhete dizendo que não deveria se casar com Capitu pois ela estaria traindo ele. O personagem acaba acreditando, porque naquele jogo de aparência da sociedade era verossímil que ele acreditasse. A mentira, quando está dentro do contexto, acaba grudando na história. Isso casa justamente com as fakes news da atualidade", diz Carpeggiani.

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Os primeiros números do Suplemento Pernambuco na Cepe, selo iniciado em 2017, procura trazer luz a questões referentes a uma crise na “República brasileira”. O primeiro livro foi Genealogia da ferocidade, de Silviano Santiago, um ensaio inédito sobre Grande Sertão Veredas, clássico de Guimarães Rosa. O segundo foi O corpo descoberto: Contos eróticos brasileiros (1852-1922), de Éliane Robert Moraes, um apanhado de 70 anos de contos eróticos no Brasil para pensar o final do Império e o início da República.

O selo também pretende lançar No calor da hora, de Walnice Nogueira Galvão, na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) deste ano. Como o homenageado será Euclides da Cunha, o livro fará um comparativo entre a forma como a imprensa se referia aos “comunistas” durante a ditadura militar e a maneira como era retratada a população de Canudos, que ambienta Os sertões. "Existe uma semelhança no discurso de linguagem. Canudos era retratado nos jornais como uma revolta que queria o fim da República, isto quando a República ainda estava no começo", diz o editor.


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