Especial Afoxé: sinônimo de resistência e trabalho social Além de representarem a religiosidade de matriz africana na rua, os afoxés desempenham um importante trabalho de profissionalização dentro das comunidades

Por: Samuel Calado - Redes Sociais

Publicado em: 30/03/2019 17:15 Atualizado em: 30/03/2019 17:44

Afoxé Alafin Oyó na Rua da Boa Hora, em Olinda. Foto: Samuel Calado/DP
Afoxé Alafin Oyó na Rua da Boa Hora, em Olinda. Foto: Samuel Calado/DP
Além de representarem a religiosidade de matriz africana na rua, os afoxés e os terreiros se estabelecem como importantes instrumentos de resistência e formação dentro das comunidades. O presidente do Afoxé Alafin Oyó, Fabiano Santos, da comunidade do V8, no Sítio Histórico de Olinda conta que mesmo respeitando uma hierarquia, nos encontros existe uma troca horizontal de saberes para além da religiosidade. “Aqui, um ensina o outro a crescer não somente no lado espiritual, mas também no acadêmico e social”, explica.



O músico do Afoxé Omo Inã, Pinha Brasil, da comunidade da Mangabeira, na Zona Norte do Recife, relata que os jovens dentro do afoxé são motivados pelo amor e pela esperança em terem a realidade transformada através da cultura. ”A maior alegria é perceber que com o pouco que ensinamos mudamos a realidade de muitos. Aqui ninguém é melhor que ninguém e eu sou apenas um facilitador do conhecimento, tão aluno quanto eles”, declara.



O presidente do Ará Omim, Lourival Santos, da comunidade do Vasco da Gama, na Zona Norte do Recife, defende que o principal objetivo do grupo é tirar as crianças e os adolescentes do universo das drogas, dando-lhes ocupação e instrução. “Antigamente na nossa comunidade tinham projetos que ofereciam diversas atividades profissionalizantes. Com o passar do tempo, eles acabaram por falta de recursos. Na ausência dessas atividades, a violência e o tráfico aumentaram na localidade. O Afoxé trouxe esse resgate e fez com que várias pessoas deixassem o lado errado da história para construir uma nova realidade”, relata.



O percussionista do Alafin, Chiquinho de Assis, conta que dentro do afoxé não tem toque pelo toque, uma vez que o ensinamento não termina no instrumento musical. “Dentro do grupo no mesmo lugar onde se aprende sobre música, se aprende sobre redação, economia, política e etc. Nós discutimos os mais variados assuntos e estabelecemos rodas de diálogos e formações”, explica. 

Chiquinho, percussionista do Afoxé Alafin Oyó. Foto: Samuel Calado/DP
Chiquinho, percussionista do Afoxé Alafin Oyó. Foto: Samuel Calado/DP


É assim que os participantes enxergam o afoxé e o terreiro: um núcleo de formação política e educacional, ou seja, um quilombo contemporâneo. Espaço onde se vive a fé e se aprende a vida. “É preciso colocar essa garotada no mercado de trabalho. Se não fizermos isso, estaremos nas mãos dos opressores”, alerta Fabiano.  

E o retorno positivo pode ser visto na mudança do comportamento tanto dos integrantes quanto da comunidade no geral. O presidente e vocalista do Obá Iroko, Clóvis Ramos, do bairro de Água Fria, na Zona Norte do Recife, narra que no início das atividades da entidade cultural, em 2012, as pessoas discriminavam o grupo por ser de tradição africana. “Quando a gente começava a tocar, as mães colocavam as crianças para dentro de casa, dizendo que era coisa do demônio. Mesmo diante dessa intolerância nós resistimos e continuamos levando a nossa mensagem de união. Hoje as mesmas mães que escondiam suas crianças fazem questão de participar dos ensaios e acompanhar o nosso afoxé durante as apresentações”, relata.





Veja também 

EP 1: Conheça a história dos Afoxés em Pernambuco


EP 2: Afoxé: força e resistência da religiosidade de matriz africana na rua




*Este material faz parte do especial "Afoxés de Pernambuco", produzido com a orientação da Doutora em Comunicação, Nataly Queiróz, como trabalho de conclusão de curso. 




Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.


Últimas