televisão Série de ficção mostra exploração de imigrantes e homofobia

Por: Estado de Minas

Publicado em: 12/03/2019 17:50 Atualizado em: 12/03/2019 17:50

Mayana Neiva vive a delegada Carolina Ramalho em Rotas do Ódio. Foto: Divulgação/Universal Channel
Mayana Neiva vive a delegada Carolina Ramalho em Rotas do Ódio. Foto: Divulgação/Universal Channel

A jornalista e cineasta Susanna Lira cursava pós-graduação em direitos humanos, em 2013, quando ficou sabendo que existia em São Paulo a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi). Logo na primeira visita às instalações acanhadas no Centro da cidade, a delegada responsável, Margareth Barreto, lhe apresentou um mapa com 23 grupos organizados de ódio que agiam de forma sistemática nas ruas de São Paulo.

Aquilo era uma verdadeira usina de informação. Esse mosaico de gangues praticava toda sorte de violência contra gays, grupos étnicos e seguidores de religiões de matriz africana. Ódio em estado puro. Uma das organizações atacava apenas nordestinos, sempre às 6h, em pontos de ônibus da periferia. Susanna então mudou-se para São Paulo para acompanhar de perto a rotina pesada da Decradi e reuniu material para um documentário, que foi batizado de Intolerância.doc.

Seis anos depois, a reportagem visitou o galpão desativado de uma transportadora de valores na Barra Funda, que foi transformado em réplica perfeita da delegacia para as filmagens da terceira (que estreia no segundo semestre) e quarta temporadas da série Rotas do ódio, da Universal TV.

Umas das grandes apostas nacionais do canal, a série, a primeira ficção de Susanna, foi inspirada na norte-americana The Wire, da HBO, que foi criada por um ex-repórter policial e roteirizada por ex-policiais.

Antes de incorporar a delegada Margareth, a atriz Mayana Neiva, que atuou na novela O outro lado do paraíso, da Globo, como Leandra, também fez uma imersão no ambiente visceral da Decradi, que não só acolheu a equipe como deu suporte para a empreitada e ajudou na construção do roteiro.
“Esse debate me interessa como ser humano: descobrir as vozes cada vez mais silenciadas na nossa cultura. A primeira temporada estreou na semana em que Marielle (Franco) morreu, e justamente falava da morte de uma mulher negra na periferia nas mesmas condições de um crime de ódio. (A série) tem uma consonância impressionante com a realidade”, disse a atriz. O fio narrativo é uma organização neonazista, a Falange, que sintetiza as 23 gangues mapeadas na vida real.

ESCRAVIDÃO 
Na terceira temporada, o grupo continua à frente da trama após ser contratado para manter cidadãos bolivianos trabalhando em condições análogas à escravidão em confecções ilegais em São Paulo. “Eles usam a ideologia do preconceito para ganhar dinheiro. Há um discurso sem vergonha de ser racista e misógino”, afirma.

Na preparação para a terceira temporada, Mayana entrou em contato com o universo subterrâneo do binômio moda e escravidão. “Conheci uma boliviana que trabalhava 12 horas por dia e ganhava R$ 140 por mês. Ia das 6h30 às 23h. A gente não percebe o mercado que está movimentando. Esses temas precisam ser discutidos”, contou a atriz.

Na quarta temporada – que já está sendo gravada, mas ainda não tem previsão de estreia –, a homofobia institucionalizada na vida de muitos imigrantes vai para o centro da investigação. Em países como Nigéria e Angola, é crime ser gay. “Quando essas pessoas migram para o Brasil, eles tentam repelir quando tem algum gay na comunidade. Tentam viver da maneira como viviam lá”, disse Susanna.

A atriz transexual Renata Peron, que é ativista dos direitos LGBT, está no elenco desde a primeira temporada, mas ganhou protagonismo na quarta. A história dela se funde com o roteiro. Ela perdeu um rim antes de buscar ajuda na Decradi da vida real. Em tempo: parte do elenco é formado por atores que são imigrantes.

MUSSUM E DILMA
Além de Rotas do ódio, Susanna Lira prepara o lançamento nacional de dois documentários dirigidos por ela. Torre das donzelas mostra relatos inéditos da ex-presidente Dilma Rousseff e de suas ex-companheiras de cela do Presídio Tiradentes em São Paulo, e Mussum – Um filme do cacildis. “Não sou engajada politicamente, mas com minhas inquietações e nas causas que acredito. Tento cutucar as feridas da sociedade. Fazer pensar”, disse Susanna. Torre das donzelas estreia em maio.

Já Mussum – Um filme do cacildis tem lançamento previsto para 4 de abril em circuito nacional. O documentário sobre a vida do humorista e sambista Antonio Carlos Bernardo Gomes mostra o outro lado do personagem escrachado que encarnava um malandro beberrão nos filmes e episódios de Os Trapalhões.


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