música Flaira Ferro canta sob as águas do rio Capibaribe em videoclipe que enaltece o frevo. Assista O frevo-rock 'Revólver' resgata o espírito de resistência que deu origem ao ritmo centenário

Por: Caio Ponciano - Diario de Pernambuco

Publicado em: 12/02/2019 12:50 Atualizado em: 12/02/2019 13:08

Clipe tem como cenário ruas e avenidas do centro do Recife. Foto: Elenilson Soares/Divulgação
Clipe tem como cenário ruas e avenidas do centro do Recife. Foto: Elenilson Soares/Divulgação

Nascida no período de carnaval, a cantora, compositora e dançarina pernambucana Flaira Ferro se considera foliã desde a infância, quando foi ao Galo da Madrugada, pela primeira vez, aos seis anos de idade. A partir daí, ela começou a fazer aulas de dança na Escola Municipal de Frevo, onde conheceu o Mestre Nascimento do Passo, e se apaixonou pelo ritmo centenário. Nesta terça-feira (12), a artista lançou no YouTube o clipe de Revólver, uma composição autoral, que fala do frevo enquanto estado de espírito e sinônimo de resistência. "Mais do que um ritmo popular ou um símbolo do carnaval, o frevo é uma ferramenta de expressão da superação. É manter-se apto a transcender o cotidiano opressor e fazer passo, gesto, poesia. Já tem um tempo em que venho trabalhando com esse olhar. Frevo é atitude, é fazer do desequilíbrio um passo novo, é um corpo pró liberdade, coletivo e individual, simultaneamente. E eu queria cantar sobre tudo isso", explica Flaira. 

9 de fevereiro de 1907 é uma das datas simbólicas de batismo do frevo. Hoje senti de postar essa foto em memória ao meu mestre Nascimento do Passo. Este que abriu o portal da dança de tanta gente e me ensinou a direção da superação. roupa rosa era sua veste cotidiana e tê-lo como mentor do meu aprendizado é um ouro que amo compartilhar com mais pessoas. Essa é uma das poucas imagens do meu aniversário de 8 anos na casa de tia Flávia. Teve bolo, banho de piscina e aula de frevo pra não perder o costume de comer dança com farinha. Não sei onde tava meu sapato mas meia no cimento tá valendo... hoje tenho dimensão dessa infância sagrada e agradeço. Milena, Lane e Érika eram meu clã minha tribo. Gratidão mestre Nascimento, estrela brilhante. Salve esse frevo-tempo onde as roupas não são mais de gravatinha, tudo mudou. Nada mudou. daqui a pouco canto no Eu acho é pouco e depois tem show 19h na várzea, no Centro São Salomão. Fuerte prenúncio para o 12/02 com revólver na continuação da vida frevo rock. #nascimentodopasso #cliperevolver #flairaferro

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O clipe, dirigido por Cezar Maia, foi gravado em dois dias de janeiro e tem como cenário paradas de ônibus, pontes e avenidas do centro do Recife. Em uma das cenas, Flaira canta em cima de uma boia, dentro do rio Capibaribe. "Quando a música ficou pronta, eu só conseguia visualizar imagens de dança com estética urbana. Eu queria trazer essa diversidade de estados de espírito que o corpo manifesta. Eu queria me acoplar ao ritmo da cidade para pulsar o entusiasmo. Me inspirei em clipes de Björk, Stromae, Madonna e também em vídeos de frevo dos meus amigos passistas do Recife", conta sobre o vídeo, que tem 16 participações especiais, entre elas, o cantor e compositor Cannibal (Devotos e Café Preto), a artista Valéria Vicente, o dançarino Otávio Bastos, que assina a direção coreográfica ao lado de Flaira, e também Zenaide Bezerra, passista de frevo mais antiga em atividade do Brasil. 

"A maioria dos dançarinos que aparecem no clipe são pessoas que cresceram junto comigo no trabalho com a dança. Otávio Bastos, por exemplo, foi meu professor na Escola de Frevo e me ensinou a ler hora em relógio de parede quando eu tinha 7 anos. Valéria Vicente é minha parceira de vários projetos artísticos. Cannibal é outro parceiro e estamos sempre participando dos shows um do outro. A única pessoa que eu não tinha um contato direto e pessoal, mas fiz questão de tê-la no clipe foi Zenaide Bezerra. Entrei em contato, fui na casa dela, conversamos, mostrei a música (que faço menção ao nome dela na letra), ela gostou e aceitou o convite", relata. 

Flaira Ferro e Iana Merisse ladeadas pelos bailarinos. Foto: Elenilson Soares/Divulgação
Flaira Ferro e Iana Merisse ladeadas pelos bailarinos. Foto: Elenilson Soares/Divulgação

O figurino do clipe é algo que chama a atenção de quem o assiste. As peças ficaram a cargo da stylist Iana Merisse e foram confeccionadas com material reciclável, provocando reflexões sobre a importância do consumo consciente sem desperdícios. "Há anos reciclo lixo na minha casa e sempre tem umas embalagens que guardo porque acho bonitas ou porque tenho a intuição de poder usá-las como acessórios futuramente. Peguei na internet algumas referências de roupas recicladas e mostrei para Iana, que topou embarcar na criação de um figurino sustentável. Todas as roupas criadas por ela no clipe são feitas com material reciclável. Teve uma tampa de queijo do reino que guardei do natal, por exemplo, e acabei usando como ombreira em um dos figurinos." 

Para que o frevo seja mais valorizado e tocado em várias épocas do ano, a cantora acredita que é preciso incentivo tanto do poder público, quanto do privado e apostar em novos compositores, estimular os festivais e o ensino nas escolas. "O mais importante é mudar o olhar sobre o frevo. Entendê-lo como algo universal, assim como outros ritmos populares como samba, funk, sertanejo. Temos de transcender o imaginário do carnaval e propor temáticas que dialoguem com os tempos de hoje. O frevo-canção ficou muito conhecido por letras saudosas e cheias de nostalgia. Sinto que para valorizar esse ritmo ao longo do ano é preciso lembrar que o frevo nasceu em diálogo com o contexto histórico do nosso país e como reflexo das tensões vigentes no fim do século 19. Esse diálogo entre o homem e o seu tempo é o que mantém as tradições acesas. Do contrário, nossa cultura vai virando peça de museu cristalizada no passado", alerta. 

NOVO DISCO
A produção musical, a instrumentação e os arranjos de rock da nova faixa ficaram sob a responsabilidade do músico Yuri Queiroga, que também está trabalhando no segundo disco de Flaira, previsto para ser lançado em julho. As letras de Revólver e Coisa mais bonita (single lançado em 2018, que teve o clipe censurado pelo YouTube por mostrar o rosto de mulheres se masturbando), indicam que o novo trabalho da recifense deverá abordar temas mais densos do que o anterior, Cordões umbilicais, de 2015. "As coisas que ando criando ultimamente estão carregadas de reflexões sobre esse contexto político tenebroso que estamos atravessando. Sinto um clima generalizado de instabilidade. Parece que tudo anda mais aflorado e incerto com essas manipulações de poder e corrupção. A minha forma de buscar harmonia interna diante do que se revela é criando, fazendo música e dançando tudo isso", finaliza. 

Assista ao clipe de Revólver:



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