Música Rapper BK traz a sonoridade do Rio Janeiro 'caótico' ao Guaiamum Treloso Representante de uma nova geração do rap, carioca apresentará o repertório do elogiado álbum Gigantes

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 06/02/2019 14:17 Atualizado em: 06/02/2019 15:35

Abebe Bikila ficou conhecido por ser integrante do grupo Nectar Gang. Foto: BK/Divulgação
Abebe Bikila ficou conhecido por ser integrante do grupo Nectar Gang. Foto: BK/Divulgação
"Sumindo com igrejas, livros, deuses e mitos / Apagando todos seus falsos heróis da história / Queimando bandeiras e cuspindo em seu líder / Somos o novo poder". O trecho é de Novo poder, faixa que inaugura o álbum Gigantes (2018), do rapper carioca BK, atração do festival Guaiamum Treloso Rural, sábado, em Aldeia, na cidade de Camaragibe. A canção ecoa como um grito de guerra de uma nova geração empoderada, insatisfeita e combativa. De fato é. Se há alguns anos, Emicida, Criolo e Projota eram os novos nomes do rap, um novo time do gênero tem usado da era do streaming para realizar álbuns tão conceituais e concisos como na época dos LPs.

Djonga, Baco Exu do Blues, Rincon Sapiência, Don L e o pernambucano Diomedes Chinaski são outros exemplos atuais. Antenados nas produções da ponta e no experimentalismo de nomes gringos como Kendrick Lamar, Jay-Z e Kanye West, mas também conhecedores de Clube da Esquina, Tim Maia e Racionais MCs, essa nova geração tem mostrado que o rap é um dos gêneros musicais que mais traduz o Brasil contemporâneo e suas múltiplas problemáticas sociais.

No caso de BK, trata-se de uma sonoridade que evoca o Rio de Janeiro urbano. "Quando eu boto Gigantes para ouvir no fone de ouvido e ando pelo Centro do Rio, tudo faz mais sentido. Tem muita gente, confusão, e consigo ver os personagens das músicas", diz o rapper, natural do bairro de Jacarepaguá, em entrevista ao Viver. A identidade visual do álbum foi feita por Maxwell Alexandre, artista plástico da Rocinha que já teve obras no Masp e no Museu de Arte do Rio. Em convergência com o conceito sonoro, as imagens mostram crianças negras com fardas escolares da rede pública do Rio, brincando com diversos pontos turísticos da cidade.

Capa do álbum Gigantes. Foto: Maxwell Alexandre/Divulgação
Capa do álbum Gigantes. Foto: Maxwell Alexandre/Divulgação
Os traços da excentricidade artística de BK estão presentes desde o seu nome de batismo: Abebe Bikila Costa Santos, inspirado em um maratonista da Etiópia - sua família sempre fez questão de exaltar raízes e matrizes afros. Ele começou a trabalhar com produção de vídeos e, mais tarde, entrou para o grupo Nectar Gang. Seu primeiro álbum solo, Castelos e ruínas (2016), o catapultou aos holofotes da cena nacional e chegou a ganhar o Red Bull Music na categoria Melhor Álbum Nacional de 2016.

O projeto sucessor começou a ser produzido no ano seguinte. Tinha um rumo narrativo e estético traçado, até a elaboração da faixa Gigantes. “Essa música mudou toda a visão do que eu queria fazer. Mudou a forma como eu queria falar com as pessoas e quais situações. Pensei que deveria ampliar isso e tornar tudo mais plural”, explica o rapper. “A partir disso, desenhei o álbum. É um tipo de projeto em que você precisa contar uma história, trazer os ouvintes para o seu universo".

As 13 faixas trazem letras em primeira pessoa, denunciando temáticas como racismo, violência policial e desigualdade de forma sagaz, sem deixar de festejar suas conquistas e superações. Cada música conta com um flow diferente, referências musicais e sonoridades múltiplas, costuradas em funk, MPB, trap (vertente do rap que abusa mais de batidas eletrônicas), música eletrônica e até jazz. Como um bom representante dessa nova geração do rap, BK prova que está antenado nas novidades do mundo enquanto conhece o suprassumo nacional.
Foto: BK/Divulgação
Foto: BK/Divulgação


O disco conta com composições e a participação de artistas como Marcelo D2, Sain, Baco Exu do Blues, Akira Presidente, Luccas Carlos, KL Jay, Juyè e Drik Barbosa. O disco foi gravado no Estúdio Companhia dos Técnicos e mixado por Arthur Luna. A masterização ficou por conta do norte-americano Chris Gehringer, que já assinou trabalhos de Jay-Z, Rihanna e Lady Gaga, sendo indicado ao Grammy cinco vezes.

Também atração do Lollapalooza, que será realizado em abril em São Paulo, ele cantará no Guaiamum Treloso no palco Naná Vasconcelos, às 21h10. "Será minha terceira vez em Pernambuco, mas a primeira vez em um evento gigante. É uma parada que tem tudo a ver com o álbum. O Nordeste sempre foi a música do Brasil, grandes nomes vieram daí", diz BK.

Outra atração do gênero no festival é Baco Exu do Blues. O baiano volta à Aldeia como um "mea culpa", já que na edição de 2018 ele teve uma inflamação nas cordas vocais e praticamente não conseguiu cantar. Também retorna, claro, pelo aclamado Bluesman (2018), seu segundo álbum de estúdio.

Ouça o disco:



SERVIÇO
Guaiamum Treloso Rural 2019
Quando: sábado (9), a partir das 14h
Onde: Fazenda Bem-Te-Vi (Estrada de Aldeia, km 13, Camaragibe)
Quanto: R$ 140 (inteira), R$ 90 (ingresso verde) e 70, à venda no Sympla
Expresso Treloso: R$ 20 (traslado de ida e volta com pontos nos shoppings Plaza, Recife e Tacaruna)


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