orgulho de pernambuco Um arquiteto que vai além da pedra e do cal Profissional sempre harmonizou a forma dos seus desenhos com a natureza. Aos 82 anos, ele reside e produz seu premiado trabalho na moradio-escritório situada no bairro da Várzea

Por: Patrícia Monteiro

Publicado em: 01/12/2018 11:24 Atualizado em:

Em sua carreira, mestre imprimiu uma marca ao valorizar características de nosso clima. Foto: Camila Pifano/Esp.DP
Em sua carreira, mestre imprimiu uma marca ao valorizar características de nosso clima. Foto: Camila Pifano/Esp.DP
Aos 82 anos de idade, o arquiteto pernambucano Wandenkolk Tinoco reside em seu oásis particular, no bairro da Várzea. Um arborizado e bucólico local que é, ao mesmo tempo, moradia, ateliê e vitrine do seu premiado trabalho como arquiteto. Afinal, a construção de 2,4 metros quadrados, projetada por ele há 10 anos, é premiada pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e um espelho do estilo que fez a fama e a notoriedade deste tão renomado profissional: construções em harmonia com a natureza e elaboradas com a utilização de elementos regionais.

A ascendência alemã dos avós maternos e o nome holandês advindo da família paterna não afetam em nada a brasilidade deste pai de cinco filhos - três homens e duas mulheres - avô de sete netos e um bisneto. O marido da também arquiteta Lyjane, há 56 anos, prioriza o tropicalismo do seu país natal tanto na sua moradia-escritório quanto nos projetos que executa. Sua casa foi construída de acordo com a inclinação do terreno respeitando a presença do cenário natural, prioritário e primordial para ele. “A natureza deve ser prioridade para empreender qualquer tipo de arquitetura, que deve ser encarada como extensão dela. Assim era no passado quando os seres humanos habitavam as cavernas. Macular este princípio é ferir a própria natureza”, explica.

Profissional símbolo do modernismo, Wandenkolk foi figura fundamental no desenvolvimento da arquitetura com esta linguagem no Nordeste do Brasil, especialmente em Pernambuco, possuindo uma série de projetos com a sua assinatura desde que se formou, no final da década de 50, de edifícios institucionais a residenciais. Foram seus apartamentos, entretanto, que fizeram da sua obra referencial para arquitetos de todo o país e que inspiraram, inclusive, o documentário Wandenkolk Tinoco: entre o verde e a sombra. O filme, roteirizado e dirigido pelo arquiteto e urbanista Bruno Firmino, então aluno do mestrado do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano (MDU) da UFPE, foi exibido pela primeira vez no Cinema São Luiz, no Recife. Desde então, já ganhou as telas de locais como Laranjeiras (SP), Espanha e Portugal.

Desde o início, caracterizaram o estilo de Wandenkolk a utilização de materiais e técnicas locais como telhas cerâmicas, azulejo, venezianas, cobogós, assim como a questão da priorização do conforto ambiental. O objetivo era levar, para dentro das casas, vento, plantas, iluminação e, consequentemente, temperaturas amenas. Foi ele quem criou as primeiras jardineiras nas varandas dos prédios e alternativa às fachadas planas. “Cheguei a projetar edifícios com quintal”, conta. Sinuosidade e a busca por ângulos diversos, inclusive, são outras das características do seu traço. É dele a frase “arquitetura tem que ter epiderme, a sensualidade das curvas.” 

“A epiderme da arquitetura é o tratamento das suas superfícies, tal qual a nossa. E a sensualidade é o maneirismo gracioso que ela deve conter em qualquer circunstância, mesmo sendo um prédio ministerial. Afinal, arquitetura não é só pedra e cal, é gente também”, sintetiza.

O primeiro dos edifícios-jardins projetados por Wandenkolk foi o Villa Bella de 1974, realizado em parceria com Ênio Eskinazi, seu ex-estagiário e sócio no período de 1966 até 1974. Seguiram-se a ele o Villa Mariana, de 1976, o Villa da Praia, de 1977, e o Villa Cristina, de 1978. Edifícios construídos a partir de uma longa e bem-sucedida parceria com Antônio Callou da Cruz. O Villa Mariana, na Praça Fleming, na Jaqueira, é considerado o mais representativo de todos por ter o maior espaço de jardim, dentre todos, nas fachadas (1,5 metros de jardim na frente do apartamento e em toda a sua volta). É protegido por lei municipal da cidade do Recife e constitui um Imóvel Especial de Preservação desde 1996. “Infelizmente, aviltado por reformas irresponsáveis. Questão, aliás, entregue aos meus advogados”, ressalta Wandenkolk.

No total, o arquiteto contabiliza cerca de 40 prédios construídos a partir de projetos seus, a exemplo do da Biblioteca da Fundação Joaquim Nabuco, que está em processo de tombamento. Manter, entretanto, este padrão “climático” dentro do universo urbano e fugindo dos modismos é cada vez mais um desafio maior. Wandenkolk acredita que a melhor forma de lidar com ele é pensar como pernambucano, nordestino, brasileiro. “O arquiteto que tem a capacidade de projetar um edifício todo de vidro também pode misturar isto com veneziana, alvenaria. Pode compor e compatibilizar o espaço interno com o volume interior porque, na realidade, arquitetura é um volume atmosférico cuja “casca” que o limita é uma escultura urbana. Então, é só querer fazer. Temos também que ter a capacidade de convencer a potencial clientela de não seguir modismos. Esta arquitetura dita de cristal, como um frasco de perfume, é bonita, não tenha dúvida. Reconheço isto, mas não acho adequada à nossa realidade”, pontua.

E se os desafios da arquitetura ainda instigam o profissional que aproveita as noites insones para trabalhar em sua prancheta, o mesmo se pode dizer em relação aos seus hobbies, a pintura e a escultura. Wandenkolk é autor de mais de 100 quadros (que retratam, geralmente, figuras masculinas) e faz esculturas diariamente. Um homem múltiplo, de multifacetados talentos em torno das artes.

Carreira marcada por conquistas

O primeiro prêmio foi concedido pela IAB-PE tão logo Wandenkolk formou-se. A partir daí, recebeu uma série de honrarias por parte das bienais de que participou. Na primeira, foi vencedor na categoria Projetos de Residência. Na seguinte, dois anos depois, recebeu uma premiação na categoria Obra Concluída, também residência. Na Bienal seguinte, o prêmio veio pela categoria Obra Pronta (residência novamente). Conquistou muitas outras premiações ao redor da vida, inclusive pelo conjunto da obra. Sobre o Orgulho Pernambuco, afirma ter recebido a honraria com simplicidade. “Achei algo um pouco exagerado. Sempre procurei fazer arquitetura séria. Me considero um arquiteto bastante razoável. Não vou dizer que sou bom porque seria cabotinismo, embora até o tenha (risos), mas não tenho vaidades pois tudo o que tenho hoje é para deixar para meus filhos”, afirma.


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