Cinema Novo filme de Robin Hood carrega exagero como forma de chegar à originalidade Robin Hood - A Origem chega aos cinemas brasileiros após ser a pior abertura de um blockbuster do ano

Por: AE

Publicado em: 29/11/2018 09:15 Atualizado em:

A história do ladrão que rouba dos ricos para dar aos pobres ganhou nova versão pelas mãos do diretor Otto Bathurst. Foto: Paris Filmes/Divulgação
A história do ladrão que rouba dos ricos para dar aos pobres ganhou nova versão pelas mãos do diretor Otto Bathurst. Foto: Paris Filmes/Divulgação

Virou trocadilho infame, que tem sido repetido à exaustão desde que Robin Hood - A origem estreou nos cinemas dos EUA. Explica-se: o filme teve talvez a pior abertura de um blockbuster do ano. Custou mais de US$ 100 milhões, rendeu a miséria de US$ 4,5 milhões. A partir daí, 11 entre dez resenhas têm feito piadinha. A história do ladrão que rouba dos ricos para dar aos pobres vai lhe roubar duas horas de vida. Haja mau humor. O diretor Otto Bathurst, que venceu o Bafta, o Oscar britânico, por Peaky blinders e teve mais duas indicações por Criminal minds e Five days, não merece tanto desprezo. Seu filme tem qualidades.

Bathurst, de 47 anos, compartilha a estética pop do diretor Guy Ritchie. Faz um Robin Hood para o século 21, com um gostinho de videogame. Filma cenas espetaculares. Os arqueiros disparam suas flechas voando nos ares, e as carroças disparam velozes e furiosas pelas pontes e estruturas de madeira da Idade Média. E, tal qual Guy Ritchie, que forjou seu rei Arthur, o poderoso Charlie Hunnam, num bordel, Bathurst filma uma bacanal muito louca.

A "origem" no título revela a intenção. Bathurst não conta apenas a gênese do herói, conta também a do vilão, que ocorre ser um vilão da classe trabalhadora. Robin Hood incorpora os temas do herói e do traidor, uma cortesia, ou influência, do argentino Jorge Luis Borges, que curtia muito os mitos anglo-saxões, vale lembrar. Taron Egerton, o garoto de Kingsman - Serviço secreto, agrega seu entusiasmo juvenil à saga do ladrão da floresta de Sherwood. Na trama, Robin é convocado pelo xerife de Nottingham para lutar nas Cruzadas. Deixa a mulher com quem acaba de casar - Marian - e ela, vale destacar, na primeira cena dos dois, está roubando um cavalo pertencente ao futuro marido, que pretende dar a um pobre. A origem da lenda, portanto, é ela.

Após um duro aprendizado na guerra, inclusive quando tenta, sem êxito, salvar a vida do filho de um guerreiro mouro, Robin volta para casa. Descobre que sua propriedade foi destruída, seus bens saqueados e a mulher se casou com outro: Will Scarlett (Jamie Dornan), que lidera os mineradores, mas não está muito preocupado com a sorte deles - só quer pavimentar sua trajetória para se sentar à mesa dos poderosos, tornando-se um traidor, em suma. Um acidente vai expor essa sua ambivalência. Entre o herói e o traidor, a mocinha, Eve Hewson - filha de Bono, do U2 -, empodera-se como convém a uma mulher contemporânea e leva a própria luta contra o despotismo.

Pelo exagero assumido, ninguém é louco de fazer uma abordagem a sério de Robin Hood - A origem. Mas talvez se devesse, porque existe um aspecto não negligenciável e que talvez ajude a explicar o fracasso do filme. Não, não tem nada a ver com qualidade, ou falta de, mas, na concepção de Otto Bathurst, a Igreja de Roma, por meio de um cardeal corrupto que se aliou ao xerife para implodir a Cruzada, está indo contra o fundamentalismo cristão que se constitui na base do presidente Donald Trump. Esse eleitorado não quer ver seu prelado numa bacanal nem comprometendo o valor estratégico/espiritual de Jerusalém para a civilização ocidental.

E ainda falta o mouro, Jamie Foxx. O cinema contou muitas vezes a história de Robin Hood, mas é preciso remeter à versão de Kevin Reynolds, de 1991, em que Kevin Costner volta da Cruzada com o mouro Morgan Freeman. Jamie Foxx, o árabe! é quem forja o herói e fornece o eixo moral do novo Robin Hood. Nada menos contrário ao espírito do tempo. Independentemente das questões, digamos, políticas, a diversão impõe-se.


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