Música Pernambucano André Mussalem faz show gratuito para lançar álbum no Recife Segundo disco do cantor, Pólis aborda as dicotomias políticas do país nos últimos anos de forma sagaz, resgatando o cancioneiro militante da metade do século 20

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 29/11/2018 08:31 Atualizado em:

André Mussalem já soma três décadas de autoria musical, mais de cem composições e o álbum de estreia, No morro na minha cabeça (2016). Foto: Josivan Rodrigues/Divulgação
André Mussalem já soma três décadas de autoria musical, mais de cem composições e o álbum de estreia, No morro na minha cabeça (2016). Foto: Josivan Rodrigues/Divulgação

Em meio à guinada conservadora no Brasil, o segundo disco da carreira do pernambucano André Mussalem traz a tradição progressista da MPB em sua essência. Pólis aborda as dicotomias políticas do país nos últimos anos de forma sagaz, resgatando o cancioneiro militante da metade do século 20, cristalizado por nomes como Chico Buarque. O álbum está disponível nas plataformas digitais desde agosto, mas terá seu show de lançamento nesta quinta-feira (29), às 20h30, no Teatro Eva Herz, no RioMar Shopping, no Pina. A entrada é gratuita.

Para se ter ideia de como a política está intrinsecamente ligada ao disco, a faixa embrionária do projeto, Retrato 3x4, foi composta logo no início do processo de impeachment da ex-presidente de Dilma Rousseff. “Tento olhar para frente e não tem esperança no coração / Arranja um sorriso emprestado do passado, que o futuro acabou”, diz um dos trechos do compositor, que já soma quase três décadas de autoria musical, mais de cem composições e o álbum de estreia, No morro na minha cabeça (2016). 

“Outros episódios foram acontecendo e se transformando em música. Sempre há um fato político por trás de cada composição”, explica André, em entrevista ao Viver. A faixa Cubana é uma resposta ao bordão conservador “Vai pra Cuba”. Deixe a menina em paz é uma adaptação contemporânea de Deixe a menina, de Chico Buarque, sob um olhar mais atual da frase do coletivo Deixe Ela em Paz. Em parceria com o conterrâneo Almério, Maré faz uma homenagem à vereadora Marielle Franco. Um dos momentos mais interessantes é Caetano estaciona no Leblon, que debocha da famosa manchete do antigo portal Ego para criticar notícias irrelevantes sobre celebridades em detrimento de tragédias sociais do Rio de Janeiro, que aqui aparece como a síntese do espaço urbano brasileiro. 

A letra traz várias referências à obra de Caetano, a exemplo de Tropicália, Alegria, alegria e A bossa nova é foda. A faixa-título, que inaugura o disco desvelando seu teor crítico, foi inspirada em um soneto de Gregório de Matos sobre a cidade do Recife no século 17. Mussalem usa a técnica utilizada por Caetano Veloso em Triste Bahia, emulando um choro com técnicas barrocas de arranjo. Todas essas letras densas e reflexivas destoam da musicalidade leve e animada ligada às tradições da samba-canção, algo bem típico da MPB dos anos 1960 e 1970. “O primeiro álbum trouxe uma formação mais original do choro. Já esse tem instrumentos como guitarra e bateria, fazendo a sonoridade soar mais moderna. Também nasceu com uma identidade delineada”, conta André. 

É interessante perceber, também, que o álbum foi lançado meses antes do resultado das eleições de 2018. Após a vitória de Jair Bolsonaro, o trabalho agora ganha uma releitura que torna as críticas ainda mais nítidas, como se tivessem sido feitas exatamente para o futuro governo. “Logo quando lancei, a música mais ouvida no Spotify foi Maré. Depois da eleição, passou a ser Resista, meu filho, resista, que na verdade foi feita para criticar a apreensão das fantasias da troça Empatando a Tua Vista no carnaval de 2017. Mas agora ela ganhou outro significado. Estamos assistindo uma reinterpretação do trabalho.”

Serviço
Show de lançamento do álbum Pólis, de André Mussalem
Onde: Teatro Eva Hertz, no RioMar Shopping (Avenida República do Líbano, 251, Pina)
Quando: nesta quinta-feira (29), a partir das 20h30
Quanto: Gratuito


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