Cinema Cinebiografia do Queen faz retrato amenizado do excêntrico e genial Freddie Mercury Com direção de Bryan Singer, Bohemian Rhapsody traz o vocalista da banda inglesa em versão fragmentada e incompleta

Por: Breno Pessoa

Publicado em: 01/11/2018 09:01 Atualizado em:

Cantor é interpretado por Rami Malek, conhecido por protagonizar Mr. Robot. Foto: Fox Film/Divulgação
Cantor é interpretado por Rami Malek, conhecido por protagonizar Mr. Robot. Foto: Fox Film/Divulgação

Nas cenas iniciais de Bohemian rhapsody, cinebiografia da banda Queen centrada na trajetória do vocalista Freddie Mercury, vemos apenas de relance o astro, interpretado por Rami Malek (Mr. Robot), prestes a subir no palco para uma histórica apresentação no Live Aid, em 1985. Ele surge sempre de costas, mostrando, no máximo, um pedaço do rosto marcado pelo icônico bigode. Essa tentativa de tentar não revelar de imediato a caracterização do protagonista acaba sendo um presságio do que vem a seguir: um retrato fragmentado e incompleto de um artista. Dirigido por Bryan Singer (X-men: Apocalipse), o filme entra em cartaz nesta quinta-feira (1).

Para além do simbolismo não intencional presente nas cenas iniciais que não mostram o rosto do ator, talvez exista o desejo de não mostrar, de cara, o cantor em seu visual mais reconhecido. Após esse trecho, o filme recua para a juventude do astro, ainda sem bigode e de cabelos longos, trabalhando como carregador de bagagens no aeroporto de Heathrow, em Londres, na Inglaterra, nos anos 1970. É a época em que ainda não havia adotado o nome Freddie Mercury, já que o cantor foi batizado Farrokh Bulsara. Nascido no Sultanato de Zanzibar, arquipélago ao leste da África que hoje é parte da Tanzânia, ele foi para a Inglaterra aos 17 anos, quando a família se mudou em razão de conflitos na região, em 1964.

Rami Malek, que anteriormente já mostrou talento na atuação de figuras desajustadas, se sai bem na performance como Freddie Mercury. Há ternura e excentricidade na medida certa, além de um ego inflado. Merece destaque também a expressão corporal, que reproduz com fidelidade trejeitos e movimentos do cantor em palco. Apesar disso, por vezes essa representação parece flertar com a caricatura, causando algum estranhamento. Responsáveis por dar vida aos demais integrantes, Ben Hardy (Roger Taylor), Gwilym Lee (Brian May) e Joseph Mazzello (John Deacon) também cumprem bem o papel, com especial destaque para Lee e Mazzello, particularmente parecidos com suas contrapartes.

É visível o cuidado da produção na tentativa de reconstruir, com precisão, passagens marcantes da carreira da banda. Há esmero no figurino e cenografia, que inclusive contou com a supervisão de Brian May e Roger Taylor, guitarrista e baterista, os dois dos remanescentes mais ativos da banda, já que o baixista John Deacon se aposentou e leva uma vida reclusa. Enquanto essa chancela passa credibilidade, parece também resultar em algum tipo de filtro na maneira como a história é contada. O roteiro de Anthony McCarten (A teoria de tudo) parece deveras preocupado em amenizar o retrato de Freddie Mercury, famoso por seus excessos.

Mais grave, o filme acaba, de maneira não intencional, associando a homossexualidade do cantor ao período de exageros, com festas bizarras, abuso de drogas e afastamento dos colegas de banda. Essa espécie de decadência do astro coincide, no filme, com o momento em que o cantor admite ter atração por homens. A falha na maneira como a questão da sexualidade do músico é apresentada termina por soar moralista, quase homofóbica. O filme se revela raso e reticente em explorar esse campo.

A cronologia também é confusa. A produção toma liberdades na condução da narrativa, o que é perfeitamente comum e aceitável na ficcionalização de uma biografia. Ainda assim, é estranho, por exemplo, que a apresentação do Queen na primeira edição do Rock in Rio, em 1985, seja retratada como um acontecimento do início dos anos 1980.

Ignoradas essas falhas ou inconsistências, Bohemian rhapsody é, sim, um filme agradável no todo e com momentos realmente memoráveis e empolgantes. A câmera transmite uma sensação de show ao vivo, em particular no ato final, que reencena, com grandiosidade, a íntegra da apresentação no Live Aid, um dos derradeiross da banda, que viria a se aposentar no ano seguinte. É difícil não se contagiar pela energia que Malek transmite ao encarnar Freddie no palco ou controlar a vontade de bater os pés ou cantarolar alguns dos sucessos do Queen. São momentos mais do que justificáveis para pagar o ingresso, ainda mais em uma sala de cinema com boa acústica.

Produção complicada
Em desenvolvimento há anos, o projeto custou a sair do papel. O filme teve entre suas primeiras notícias, em 2011, a escalação do comediante Sacha Baron Cohen, conhecido pelos filmes Borat (2007) e Brüno (2009), para interpretar Freddie Mercury. Em 2013, o ator se desligou da produção, alegando diferenças criativas. De acordo com ele, sua intenção era aprofundar as polêmicas da vida pessoal do cantor, enquanto os remanescentes da banda preferiam uma visão mais superficial sobre esses tópicos e um foco maior na história do Queen, propriamente.

Já Brian May declarou recentemente, à Associated Press, que Sacha “não levava Freddie a sério o bastante”. Em dezembro de 2017, vieram à tona denúncias sobre o diretor, Bryan Singer, que foi acusado de abusar sexualmente de um jovem de 17 anos em 2003. Na mesma época, surgiram rumores de desentendimentos entre o cineasta e Rami Malek. Faltando algumas semanas para o fim das filmagens, o realizador foi afastado do projeto, sob o pretexto de questões de saúde. Embora Singer seja creditado como diretor, o restante do filme foi comandado por Dexter Fletcher.


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