TV Nova série traz versão mais madura e sombria de Sabrina Adaptação da Netflix tem protagonista carismática e também em sintonia com questões atuais

Por: Breno Pessoa

Publicado em: 26/10/2018 09:35 Atualizado em: 26/10/2018 09:37

Kiernan Shipka (Mad Man) encarna uma adolescente doce e também poderosa. Foto: Diyah Pera/Netflix
Kiernan Shipka (Mad Man) encarna uma adolescente doce e também poderosa. Foto: Diyah Pera/Netflix

Muito antes de Harry Potter, ainda nos anos 1960, Sabrina mesclou bruxaria e questões da adolescência. Surgida nos quadrinhos norte-americanos da Archie Comics, a personagem ganhou revista própria, foi transposta para desenhos animados e ganhou uma série televisiva exibida entre 1996 e 2003. Depois de 15 anos desde o fim do programa, a aprendiz de feiticeira retorna à TV, em produção original da Netflix, disponível na plataforma a partir de hoje.

O mundo sombrio de Sabrina é, como o título sugere, uma releitura mais dark universo da personagem, inspirada na mais recente versão em quadrinhos da bruxa adolescente. É uma proposta similar à da série-irmã Riverdale, que trouxe tons mais adultos para as aventuras de Archie e sua turma. Aliás, este remake de Sabrina seria inicialmente desenvolvido pela Warner – a responsável por Riverdale –, mas o projeto acabou indo parar na Netflix.

A atração já tem duas temporadas garantidas, com dez episódios cada. As gravações do segundo ano, inclusive, já estão em andamento. Sabrina conta com importantes nomes da equipe criativa de Riverdale, incluindo o showrunner Roberto Aguirre-Sacasa, que também é o chefe criativo da Archie Comics e assina o roteiro da série da bruxinha, além de ser produtor executivo.

Apesar de serem ambientadas no mesmo universo televisivo e terem colaboradores em comum, ainda não há certeza sobre um crossover entre as duas produções. A Netflix disponibilizou para a imprensa os dois primeiros episódios da produção.

A premissa original é mantida, sem grandes mudanças: Sabrina (Kiernan Shipka) é uma adolescente prestes a completar 16 anos e, tendo descendência de bruxos, ao alcançar esta idade, precisa passar por um Batismo Sombrio e deixar para trás a vida mundana. Ou seja, deixar de lado os amigos, os familiares e o namorado para embarcar numa espécie de escola de artes místicas.

Órfã, Sabrina é filha de um célebre bruxo que casou com uma mortal, tendo sido criada por duas tias excêntricas, Zelda (Mirando Otto) e Hilda (Lucy Davis). Dividida entre o lado humano e a mundo místico, a garota não está plenamente convencida se passar pelo ritual é a escolha certa, ainda mais considerando que a decisão não teria volta.

Quem viu a série dos anos 1990, que apostava mais na comédia e no aspecto inusitado de uma bruxa vivendo entre humanos, talvez estranhe, inicialmente, o clima trevoso da nova produção. De fotografia predominantemente lúgubre e com personagens mais sérios, O mundo sombrio de Sabrina embarca sem medo no terror adolescente. Em pouco mais de dez minutos do primeiro episódio, já temos uma morte e boa dose de sangue à vista.

Mas nem tudo é treva e escuridão: a despeito de ritos macabros e referências satânicas, há elementos mais ensolarados, a começar pela protagonista. Kiernan Shipka, vista anteriormente em Mad Men, entrega uma cativante Sabrina.

Se há uma pontinha malévola na personagem, típica das bruxas, essa faceta aparece como arma para combater injustiças e não como ambiguidade moral. É uma personagem forte, destemida e também doce e gentil. O gatinho preto Salem, protetor da bruxinha, traz um componente que traz levezas para algumas passagens e certa dose de fofura.

A série ainda dialoga com tópicos importantes e sempre atuais, como questões de gênero, machismo e bullying. A própria Sabrina lidera a criação de um clube escolar intitulado Associação Cultural e Criativa Intersecional das Mulheres. Aliás, o título da agremiação, em inglês, Women’s Intersectional Cultural and Creative Association, é abreviado como Wicca, nome da religião neopagã relacionada à bruxaria.

Com episódios de duração aproximada de uma hora, fica a sensação de que algumas passagens poderiam ser suprimidas, em prol de uma narrativa mais curta, mas o ritmo não chega há ser moroso. Há equilíbrio entre o suspense, acontecimentos dramáticos e ação envolvendo criaturas sobrenaturais (representadas a partir de bons efeitos visuais).

As questões mais densas, relativas à sexualidade e gênero, são bem inseridas na trama, aparecendo de maneira natural e pertinente. O humor não é um elemento marcante, mas aparece bem dosado aqui e ali e traz um respiro na atmosfera sombria da série.

Sabrina tem um início consistente e mostra um terror teen acima da média e trama empolgante, pontuada por elementos excêntricos mas, também, com forte elemento humano. É uma boa releitura.

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