Cinema Legalize Já regasta a fundação do Planet Hemp a partir da amizade entre Marcelo D2 e Skunk Dupla é interpretada por Renato Góes e Ícaro Silva, que regravaram hits da banda para o filme

Por: Breno Pessoa

Publicado em: 18/10/2018 11:45 Atualizado em: 18/10/2018 11:27

Embora passe pela gênese do grupo, foco da cinebiografia é na relação de amizade dos músicos. Foto: Academia Filmes/Divulgação
Embora passe pela gênese do grupo, foco da cinebiografia é na relação de amizade dos músicos. Foto: Academia Filmes/Divulgação

O título pode até dar a entender que se trata de uma produção pautada pelo debate na descriminalização da maconha ou sobre o Planet Hemp, mas é no subtítulo que está o cerne da principal estreia nacional desta semana nos cinemas. Legalize já: a amizade nunca morre, em exibição a partir de hoje, é menos sobre a formação da banda e mais sobre o laço entre Marcelo D2 e Skunk, os idealizadores do grupo.

Dirigido por Johnny Araújo e Gustavo Bonafé, o longa é também, sim, sobre as origens do grupo que tornou a faixa Legalize já um hit. Mas a grande força da história está na construção da amizade entre os fundadores do projeto, cuja formação inicial tinha ainda Rafael Crespo (guitarra), Formigão (baixo) e Bacalhau (bateria). Renato Góes interpreta Marcelo Maldonado Peixoto (D2), enquanto Ícaro Silva aparece em cena como Luís Antonio da Silva Machado (Skunk).

Ambos com 20 e poucos anos, os dois jovens suburbanos se conheceram nas ruas do Rio de Janeiro no início da década de 1990, e iniciaram a aproximação a partir de gostos musicais em comum, especialmente punk e rock. Skunk, que morreu em 1994, em decorrência de complicações por conta da Aids, acabou não presenciando o lançamento do primeiro álbum do grupo, Usuário (1995).

A morte precoce tornou Skunk menos conhecido do grande público do Planet Hemp, mas o surgimento da banda se deu justamente pela persistência dele, que encorajou D2 a deixar em segundo plano o trabalho como camelô e tentar uma carreira musical, já que Marcelo tinha algumas composições. Os dois cogitaram enveredar pelo rock, mas a falta de afinidade com instrumentos musicais acabou levando a dupla a apostar o talento como vocalistas, com o rap.

Skunk é, sem dúvida, a alma do Planet Hemp e o filme reconhece isso. Ícaro, que interpretou Jair Rodrigues e Wilson Simonal em musicais teatrais, parece ter uma ligação forte com a música e entrega um potente retrato de um jovem artista. Igualmente convincente, Renato Góes dosa bem a mistura entre marra e doçura na interpretação de D2. Amigos de longa data, os atores têm uma ótima sintonia em cena e se saem muito bem ao emprestarem a voz para regravarem faixas como Legalize já e Mantenha o respeito.

Tal como o filme não é exatamente sobre o Planet Hemp, o roteiro de Felipe Braga também não escorrega na armadilha de simplificar a obra da banda ao tema da legalização da droga. "Não é sobre maconha, é sobre liberdade", lembra Skunk em certo momento do filme. Pelo contrário, ressalta o discurso politizado e pautado na resistência e denúncia social, tópicos presentes nas músicas e também nas conversas entre os personagens centrais do filme.

"O objetivo desses jovens era mudar sua realidade através da arte, da comunicação e de protestos extremamente justos", comenta Ícaro Silva. "Diminuir a banda à causa da planta é ignorar o tamanho que seu discurso ganhou e a quantidade enorme de fãs de todas as idades e origens, no Rio e no Brasil", acrescenta.

Legalize já é um filme cheio de coração e está longe de ser uma obra feita apenas para quem é fã da banda ou se interessa por música. É uma produção competente e uma exceção entre cinebiografias que, não raro, se prestam apenas à homenagem de seus personagens centrais. Há uma boa história, contada com ternura, mas sem idealizações.

Ator montou banda para se preparar

O preparo para interpretar Marcelo D2 nas telas foi além do estudo do personagem e contato com o músico, conta o pernambucano Renato Góes. "Criei uma banda com mais quatro caras para tocar por oito meses", comenta o ator, observando que, apesar do esforço, o roteiro inicial tinha poucas sequências musicais. "Minha intenção era ir entrando no ritmo, na voz, no flow. É muito difícil cantar o rap", observa. Góes conta que, ao ficar satisfeito com os resultados, gravou a performance e mandou o áudio para Marcelo D2.

"Ele achou que era uma coisa antiga deles (do Planet Hemp)", recorda o ator, acrescentando que também teve acompanhamento fonoaudiológico e viajou algumas vezes com a banda. Marcelo, que também assina o argumento do filme, acompanhou algumas gravações no set.
Ao ouvir gravação feita por Góes, D2 chegou a pensar que se tratava de um registro antigo do Planet Hemp.  Foto: Academia Filmes/Divulgação
Ao ouvir gravação feita por Góes, D2 chegou a pensar que se tratava de um registro antigo do Planet Hemp. Foto: Academia Filmes/Divulgação

Como parte da imersão, foi morar no bairro do Catete, no Rio, onde o músico cresceu. Por lá, o ator também trabalhou como camelô. Por conta da visibilidade na novela Velho Chico, foi, a princípio, reconhecido por muitas pessoas. Mas após raspar o cabelo, tirar a barba e deixar apenas o bigode, conseguiu dar andamento ao experimento com mais tranquilidade.

O ator recorda que entrou em contato com a música do Planet Hemp a partir de um amigo carioca chamado Henrique, que estudava no mesmo colégio, no Recife. "Um dia ele apareceu com o segundo CD (da banda), Os cães ladram mas a caravana não para (1997)", diz. Ele conta que, a princípio, se interessou sobretudo pelo caráter mais transgressor das letras. "Só depois fui entender o grito político dos caras", afirma.

Na avaliação do ator, Legalize já chega em momento oportuno, quando movimentos conservadores ganham mais espaço. "O filme é atual, político. A gente tem um filme mensagem de legalizar o amor, os corpos", defende.

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