Entrevista Gal Costa: 'Gostaria de ver era o país humanizado, mas está difícil' Gal Costa lança A pele do futuro, quadragésimo álbum da diva do tropicalismo, resultado de ampla garimpagem, que inclui a presença de compositores de diferentes gerações

Publicado em: 14/10/2018 15:03 Atualizado em: 14/10/2018 15:07

Gal Costa tem as participações de Marília Mendonça e Maria Bethânia em 'A pele do futuro'
(foto: Bob Wolfenson/Divulgação)
Gal Costa tem as participações de Marília Mendonça e Maria Bethânia em 'A pele do futuro' (foto: Bob Wolfenson/Divulgação)

"Fiz um disco bem diversificado, com uma sonoridade disco music, que sempre quis gravar para, na época, tocar em discoteca. Um disco que qualquer pessoa pudesse gostar, até mesmo aquelas que não ouvem minhas coisas. É um disco que tem frescor. Está ali uma Gal Costa cantando de maneira nova”. Projeta-se a diva do tropicalismo, uma das quase unanimidades da MPB, se posicionando em busca do reconhecimento nesta nova fase da carreira.

Do recém-lançado A pele do futuro o quadragésimo disco de Gal, o que se depreende é uma cantora na plenitude da maturidade que, corajosamente se reinventa, enquanto intérprete. Com naturalidade, mantém o refinamento artístico, que sempre foi sua marca registrada na vitoriosa trajetória de 53 anos no universo da música popular brasileira.

Na concepção do novo álbum, com direção musical de Pupillo (ex-percussionista da banda Nação Zumbi), a cantora contou com a dedicação de Marcus Preto— com quem trabalhou, anteriormente, no show Espelho d’Água e no CD Estratosférica — responsável pela garimpagem das 12 canções que formam o repertório e a direção artística. “O Marcus fez a colheita das músicas junto aos compositores, pedindo a cada um deles. Juntos, ouvimos e fizemos a seleção, pois foram muitas as que chegaram a mim”, revela Gal.

Chama a atenção o eclético grupo de autores que contribuíram para a criação do A pele do futuro, do qual fazem parte nomes consagrados como Gilberto Gil (Viagem passageira), Erasmo Carlos, em parceria com Emicida (Abre-alas do verão), Jorge Mautner , com César Lacerda (Minha mãe), Djavan (Dentro da lei), Nando Reis (Mãe de todas as vozes), Hyldon (Vida que segue), Guilherme Arantes (Puro sangue-Libelo do perdão) Adriana Calcanhotto (Livre do amor) e Paulinho Moska (Cabelos e unhas).

Sofrência

Mas a diva gravou também novos compositores. Sublime, a canção que abre a lista, por exemplo, é de Dani Black (já gravado por Ney Matogrosso). A ele se juntam Tim Bernardes (que fez Realmente lindo), Silva e Omar Salomão (filho de Wally Salomão), autores de Palavras no corpo. Surpreendente para alguns é a presença nesse projeto de Marília Mendonça, a rainha da sofrência. Ela não só é a coautora de Cuidando de longe, como divide a interpretação com Gal.
 
“Embora o Marcus (Preto) tenha feito o contato com a maioria dos compositores, eu mesma é que solicitei músicas para o Gil e o Guilherme Arantes. Como em 2017 estava em turnê do show Trinca de ases com o Gil aproveitei e pedi uma canção para ele, que me presenteou com a lindíssima Viagem passageira”, conta Gal. “Quando liguei para o Guilherme, sugeri a ele algo na praia de Earth, Wind & Fire; e veio Puro sangue (Libelo do perdão), na medida exata, com o foco na disco music. Chegamos a pensar numa letra do Caetano para a melodia, mas ele achou que não era o caso, e disse: ‘Essa música está pronta e é linda’. Na gravação, contamos com os teclados e sintetizadores arranjados e tocados pelo próprio Guilherme”,acrescenta.

Nando Reis, companheiro de Gal e Gil no Trinca de ases, havia feito Mãe de todas as vozes para o show, que acabou não entrando no roteiro — pois já havia outras duas dele. A cantora comemorou o fato, porque tinha uma música inédita, um blues’n rock, inspirado na fase Fa-Tal, para começar a construir o repertório do novo disco.

Gal tem uma explicação para Caetano Veloso, o compositor de que ela mais gravou, ter ficado de fora do A pele do futuro. “Caetano estava ocupado com show em parceria com os filhos, não quis atrapalhar. Nem cheguei a pedir música para ele. Mas, mesmo ausente do disco, Caetano está sempre comigo em todas as coisas que faço. Nós temos uma cumplicidade musical”.

Em 25 de novembro, Gal Costa canta no Centro de Convenções Ulysses Guimarães
(foto: Natally Andressa/Divulgacao)
Em 25 de novembro, Gal Costa canta no Centro de Convenções Ulysses Guimarães (foto: Natally Andressa/Divulgacao)

Em compensação, depois de muito tempo sem cantar juntas, Maria Bethânia voltou a gravar com Gal Costa. O reencontro foi promovido por Minha mãe, última canção a entrar no disco. A letra de Jorge Mautner, amigo de Dona Mariah (mãe de Gal), musicada pelo melodista mineiro César Lacerda e profundo conhecedor do universo das duas cantoras, remete à religiosidade de Dona Canô (mãe de Bethânia). Segundo Marcus Preto, “serviu como um veículo ideal para o novo dueto e entre as cantoras. A gravação se deu como uma oração em duas vozes, as vozes do Brasil, acalentadas pela sanfona de Mestrinho”.

O A pele do futuro (o nome foi pinçado da letra de Viagem passageira, canção de Gilberto Gil) vai virar show e a estreia está marcada para 1º de dezembro no Tom Brasil, em São Paulo. “No dia 7, canto no Vivo Rio, no Rio de Janeiro, e a apresentação deve ser gravada. Às canções do álbum vão se juntar no repertório alguns sucessos da minha carreira, que receberão novos arranjos, para que se adequem ao clima do disco”, anuncia”.

Sem esconder o temor, Gal prevê a chegada do apocalipse. “O Brasil e o mundo estão muito violentos. O que vemos é uma radicalização sem limites, uma violência desmedida, com algo negativo pairando no ar, que leva as pessoas ao confronto, em razão do posicionamento político. Tudo o que gostaria de ver era o país humanizado, mas está difícil”.

Espelho d’Água

O show que Gal Costa faz em Brasília, no dia 25 de novembro, no auditório máster, do Centro de Convenções Ulysses Guimarães, ainda não é o A Pele do Futuro, e sim o Espelho d’Água, com o qual cumpriu turnê entre 2016 e parte de 2017. Na verdade é um recital intimista, em que tem a companhia do do guitarrista e violonista Guilherme Monteiro, com quem vem trabalhando já há três anos. No Espelho d’Água, idealizado por Marcus Preto revisita canções que se tornaram marcantes em sua obra. No roteiro há a predominância de composições de Caetano Veloso. Do eterno tropicalista ela interpreta, entre outras, Coração vagabundo, Força estranha, Tigresa, Vaca profana, Vapor barato (Jards Macalé e Wali Salomão) e Você não entende nada. Negro amor, versão de I’ts all over now, Baby Blue, de Bob Dylan.Gal canta também nesse espetáculo composições de Chico Buarque (Samba do grande amor), Jorge Ben Jor (Tuareg), Lipicínio Rodrigues (Um favor e Volta), Roberto e Erasmo Carlos (Meu nome é Gal e Sua estupidez), além de Negro amor, versão de Cetano Veloso e Péricles Cavalvanto para I’ts all over now, Baby Blue, de Bob Dylan.


SERVIÇO
A Pele do Futuro
CD de Gal Costa, com 12 faixas, direção artística de Marcus Preto e direção musical de Pupillo. Lançamento da gravadora Biscoito Fino. Preço sugerido R$ 30,90.
 
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