Literatura Livro desvenda mistérios sobre a morte de Hitler Livro sobre a morte de Hitler põe fim às teorias da conspiração de que o nazista não teria morrido em abril de 1945

Por: Nahima Maciel - Correio Braziliense

Publicado em: 02/09/2018 10:30 Atualizado em:

Jean-Christophe Brisard escreveu a história da morte de Hitler de maneira eletrizante. Foto: Arquivo pessoal
Jean-Christophe Brisard escreveu a história da morte de Hitler de maneira eletrizante. Foto: Arquivo pessoal

Hitler fugiu em um submarino e desembarcou na Argentina, onde teria morrido com mais de 80 anos. Ou sentou ao lado de um sujeito em um restaurante em Washington. Poderia também estar na Colômbia, como afirma uma carta recebida pelo jornal El Tiempo em 1948, ou ter se instalado em Nossa Senhora do Livramento, no Mato Grosso, onde teria morrido, obviamente, na clandestinidade. Antes disso, teria recebido do Vaticano o mapa de um tesouro enterrado na região. Poderia ainda ter morrido na Patagônia, onde o Reich havia comprado terras públicas graças à gentileza e simpatia de Juan Peron. Ali, planejava instalar a continuação do terceiro Reich. As teorias da conspiração sobre a morte do líder nazista já renderam livros, filmes e dezenas de documentários. Segundo elas, Hitler não teria se suicidado na tarde de 30 de abril de 1945, em seu bunker, em Berlim, quando se deu conta de que seria impossível resistir às tropas russas e sobreviver ao fim da Segunda Guerra. Com uma licenciatura em história, o jornalista Jean-Christophe Brisard nunca acreditou em nenhuma delas, mas também se perguntava por que havia tanta falta de prova em relação o fim do ditador alemão. Foi uma faísca para acender a investigação que resultou em A morte de Hitler, lançado em 2017 na França e que agora chega ao Brasil.

Todas as teorias se baseavam no fato de os russos, os primeiros a chegar ao bunker, nunca terem apresentado provas definitivas da morte de Adolf Hitler. Donos dos únicos fragmentos de restos mortais do nazista, um pedaço de crânio incinerado e parte de uma arcada dentária com alguns dentes, também nunca permitiram exames capazes de comprovar a origem dos ossos. Somente em 2016, o mistério em torno de um dos temas mais sensíveis da história recente europeia foi encerrado, quando Brisard e Lana Parshina, jornalista russa, revelaram os resultados de dois anos de investigação junto aos arquivos secretos russos: o crânio levado por oficiais do Exército Vermelho a Moscou, em 1945, era mesmo de Hitler.

A investigação é narrada com detalhes em A morte de Hitler. O livro conta a peregrinação empreendida em busca dessa verdade histórica tão sensível e, ainda hoje, objeto de disputa política. Narrado em forma de trilher, difícil de largar antes da última página, o texto intercala os bastidores da investigação com a reconstituição dos últimos dias do führer alemão. O clímax, claro, fica por conta da confirmação da morte, atestada pelo legista francês Philippe Charlier, mas há todo um trabalho minucioso de organização das informações retiradas dos documentos originais encontrados nos arquivos da FSB e da GARF, os serviços secretos russos, e em outros documentos dispersos por instituições russas. Testemunhos de nazistas que habitavam o bunker no momento da morte de Hitler e dos próprios oficiais que os capturaram permitiram uma reconstrução detalhada daquele fim de abril de 1945.

Um trabalho de formiguinha que enfrentou muita burocracia, uma resistência quase soviética e uma dúvida constante quando chegavam autorizações para a investigação. Brisard e Lana desconfiavam que poderiam ser manipulados pela presidência de Vladimir Putin. Lembrar ao mundo a extensão do poder da Rússia, capaz de derrubar o nazismo, e retomar um orgulho nacional ferido por um contexto geopolítico, que coloca a seriedade do governo russo em xeque internacionalmente, seriam bons motivos para deixar dois jornalistas ocidentais (Lana é russa, mas tem passaporte americano) provarem o maior feito do Exército Vermelho no século 20. “Para mim, foi a oportunidade de encerrar definitivamente as especulações de que Hitler teria morrido octagenário ou nonagenário na América Latina. Minha ideia era obter a autorização dos russos para efetuar os testes científicos desses restos humanos. E de fazê-lo legalmente para poder publicar os resultados em uma revista científica internacional”, avisa Brisard.

Tudo documentado
Em 2009, uma equipe de tevê norte-americana veiculou um documentário no qual dizia ter comprovado que os restos humanos guardados em Moscou não eram de Hitler, e sim de uma mulher jovem. Quem atestava o fato era o cientista Nick Bellantoni. Ele teria conseguido um pedaço do crânio para fazer as análises necessárias à comprovação. No entanto, as autoridades russas sempre negaram ter autorizado o cientista a manipular o pedaço de osso ou a fazer testes. Bellantoni também negava ter roubado o fragmento, mas não revelava de onde veio a autorização. Também nunca se interessou por publicar o achado em nenhuma revista científica, procedimento quase automático por parte de cientistas para legitimar suas descobertas. No caso de Brisard e Lana, tudo está documentado, inclusive as autorizações para que realizassem os exames. “Se você perguntar quem nos deu as autorizações para nossa investigação, nós podemos dar todos os documentos e nomes”, avisa o jornalista.

A morte de Hitler
De Jean-Christophe Brisard e Lana Parshina. Tradução: Julia da Rosa Simões. Comapanhia das Letras, 352 páginas. R$ 59,90.

Quatro perguntas/ Jean-Christophe Brisard 
 
Por que, na sua opinião, os russos permitiram depois de décadas, que um estrangeiro fizesse essa investigação? Você diz, no livro, que as autorizações vinham do mais alto escalão da administração...
É preciso entender o contexto político da nossa investigação, com a guerra da Síria, com a intervenção russa, a anexação da Crimeia, a guerra da Ucrânia, as suspeitas de manipulação russa das eleições americanas.... Em resumo, o regime de Moscou, para grande parte da comunidade internacional, não é frequentável. Os russos vivem muito mal essa situação. Eles se sentem uma fortaleza cercada. O orgulho deles acabou multiplicado por 10 e imagino que isso levou a vontade de lembrar ao mundo que a Rússia é uma grande potência, militar inclusive. Isso jogou a nosso favor. O Kremlin teve a oportunidade, com nossa investigação, de lembrar que foi o Exército Vermelho que ganhou a batalha de Berlim e recuperou o cadáver de Hitler. De certa maneira, eles eram os heróis da Segunda Guerra Mundial.

O senhor tinha dúvidas em relação à morte de Hitler quando começou a pesquisa?
Fiz faculdade de história e aprendi que Hitler morreu, se suicidou no seu bunker. No entanto, também vi e li todas as teorias sobre sua sobrevivência e sua fuga de Berlim para a América Latina. O que mais me perturbava era a ausência de provas físicas de sua morte. Contrariamente aos altos figurões nazistas, que morreram no final da guerra, como Goebbels, Himmler e Goering, não existia nenhuma foto oficial do cadáver de Hitler. A partir disso, a dúvida se torna possível. E as teorias conspiratórios nunca pararam de florescer. Eu não acreditava nessas teorias, mas, enquanto jornalista, eu queria uma certeza. Eu partia do princípio que tudo era possível.

O senhor acredita que essas teorias vão cessar agora?
Para ser franco, eu penso que haverá sempre pessoas para acreditar em um complô ou para afirmar que os jornalistas mentem. Mesmo assim, tenho a esperança de ter persuadido um grande número dos que, sinceramente, tinham dúvidas. Nós baseamos toda nossa investigação em fatos científicos e históricos indiscutíveis.

Como o senhor fez para trabalhar de maneira tão séria sobre um tema tão sensível?
Nós tivemos um luxo inacreditável: o tempo. Essa investigação durou dois anos. Nós levamos o tempo que era necessário para verificar tudo, para cruzar fontes, para discutir com historiadores. Esse tempo e o dinheiro necessário para isso fizeram a diferença. Fui diversas vezes a Moscou para visitar os arquivos. Os oficiais russos ficavam surpresos de nos ver com tanta frequência. Eles nos diziam que, normalmente, os jornalistas vinham uma ou duas vezes. Nunca mais que isso. Nossa persistência os convenceu de que não buscávamos um furo fácil, mas que queríamos realmente investigar a história a fundo. Acho que, por isso, acabaram por nos deixar penetrar nos arquivos da FSB, os serviços secretos russos, e manipular os dentes de Hitler. Nem mesmo os jornalistas russos tiveram esse acesso.


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