Literatura 'Eu escrevo sobre o dia a dia do homem, da prostituta, do mendigo e do ladrão', diz o poeta Miró Ele será homenageado no Festival Recifense de Literatura, que começa hoje, no Bairro do Recife

Por: Caio Ponciano

Publicado em: 24/08/2018 11:00 Atualizado em: 24/08/2018 11:20

Miró foi escolhido para receber a homenagem ainda nas primeiras reuniões do A Letra e a Voz deste ano. Foto: Wesley D'Almeida/PCR/Divulgação
Miró foi escolhido para receber a homenagem ainda nas primeiras reuniões do A Letra e a Voz deste ano. Foto: Wesley D'Almeida/PCR/Divulgação

Com o tema A cidade do poeta e o poeta da cidade, a 16ª edição do Festival Recifense de Literatura - A Letra e a Voz vai celebrar a produção literária contemporânea e homenageará a poesia urbana do pernambucano Miró, com programações de hoje a domingo. Realizado pela Prefeitura do Recife, em parceria com a Academia Pernambucana de Letras e a Universidade Católica de Pernambuco, o evento é gratuito e vai ocupar a Avenida Rio Branco, no Bairro do Recife. 

Além da já tradicional feira de livros, rodas de conversas, oficinas e debates para discutir como as paisagens habitam obras e seus autores, a edição deste ano vai marcar o lançamento da Coletânea Denis Bernardes de ensaios, com textos que narram a cidade do Recife diante das mais variadas perspectivas. Com cerca de 25 páginas cada, as obras foram escolhidas através de um concurso lançado na edição passada do festival. “Já tínhamos feito coletâneas de contos, de crônicas e de poesias. Faltava a de ensaios, com amplas visões sobre a cidade do Recife e que pudesse ser lida por historiadores ou não”, diz Heloísa Arcoverde, assessora de literatura da Secretaria de Cultura do Recife. “Cada um dos dez autores aborda algo diferente, a exemplo dos planos que a cidade teve para se modernizar, a história do teatro para as crianças, a cultura afro-brasileira e a origem dos sobrados recifenses”, continua. 

Os textos foram selecionados a partir da curadoria de Antônio Paulo Rezende, Cícero Belmar e Jorge Siqueira, que consideraram as datas, a compatibilidade com a temática proposta e a veracidade das informações. Os ensaios escolhidos são assinados por Ricardo Japiassu, Mário Ribeiro dos Santos, Mário Pereira Gomes, Mariana Aragão, Marcos de Oliveira, Luci Maria da Silva, Leidson Ferraz, Francisco Pedrosa, Eduardo Jorge Pugliese e Rudimar Constâncio. Segundo Heloísa, a escolha para homenagear o historiador já falecido, Denis Bernardes, foi unânime. “Ele foi um grande pesquisador e seu trabalho reflete nessa coletânea, pois todos os ensaios do livro partiram de uma vasta pesquisa sobre o Recife”, explica. O lançamento será hoje, a partir das 19h, com bate-papo e sessão de autógrafos com os participantes da publicação. 

Amanhã, a partir das 14h, serão realizadas oficinas de poesia visual, narrativas em quadrinhos e narrativas breves, no Paço do Frevo. A oficina de noções de diagramação e artesania editorial será ministrada na própria estrutura do festival, na Rio Branco. Já a partir das 18h, serão promovidos debates com mediação de Cícero Belmar e uma mesa de glosas com convidados, coordenada por Jorge Filó. No último dia do festival, haverá uma feira de livros e números musicais com Clécio Rimas, Amaro Freitas, Bell Puã (vencedora do Slam BR) e o homenageado Miró.

RECONHECIMENTO
É comum encontrar Miró declamando seus poemas pelos bares e pelas ruas do Recife. Foi por este motivo que, ainda nas primeiras reuniões do A Letra e a Voz deste ano, o nome dele foi sugerido para receber a homenagem. Dessa vez, o festival vai celebrar a literatura urbana e, para Sennor Ramos, curador do evento, não há nada mais urbano no Recife do que a poesia de Miró. “Ele é o poeta vivo mais conhecido atualmente em Pernambuco. Quando Miró passa, todo mundo reconhece”, diz. 

Nascido João Flávio Cordeiro da Silva, em agosto de 1960, Miró poderia ter seguido outro rumo. Ele cresceu se destacando nas peladas do bairro onde morava e ganhou esse apelido em alusão ao então craque Mirobaldo, do Santa Cruz. Mas, ao apresentar seu primeiro verso para o poeta Maurício Silva e ouvir dele a frase “tu és mais poeta que eu!”, Miró teve a certeza de que era mais hábil com as palavras do que com a bola. O recifense, nascido no bairro da Encruzilhada, Zona Norte da capital, possui 13 obras publicadas. Em 2013, os poemas dos seus 11 primeiros livros foram reunidos na coletânea Miró até agora, que o tornou o segundo escritor mais vendido pela Cepe Editora, ficando atrás apenas de Raimundo Carrero. 

[ Entrevista Miró // poeta

Essa será a primeira homenagem que você recebe em 40 anos de carreira? Acredita que ela demorou? 
Já fui homenageado em outras cidades, como Petrolina e Fortaleza, mas foi algo menor. A primeira oficial está sendo aqui no Recife mesmo, na cidade-cenário para os meus poemas. Não acho que demorou, veio no tempo certo. É comum vermos homenagens para quem já morreu, eu fico feliz e honrado em ter meu trabalho reconhecido enquanto vivo. 

De onde vem as inspirações para os seus poemas? 
Vem das ruas. Na verdade, minha vontade era de ser jornalista, mas não passei na prova. Mas, ainda assim, me considero mais um cronista do que um poeta. A minha mãe, Dona Joaquina Cordeiro, dizia que eu era um bom fofoqueiro porque, até hoje, não posso escutar uma conversa de bar que fico prestando atenção. Por isso, eu escrevo sobre a vida, o cotidiano urbano, o dia a dia do homem, da prostituta, do mendigo, do ladrão... Eu escrevo sobre qualquer coisa que passe pela minha frente. 

Como funciona a oficina que você promove nas escolas? 
É de onde vem o meu sustento. Sou um escritor negro e da periferia, que sobrevive da própria poesia há 40 anos. A oficina que eu levo para as escolas e para o interior se chama Como nasce um poema?. Nela, fico duas horas contando como eu escrevo, como nascem minhas obras e também apresento os meus livros. 

Você já tem material para um próximo livro? 
Sim. Estou produzindo em parceria com Wellington de Melo (editor da Cepe) uma publicação com temática infantil. Eu nunca vi meu pai, minha mãe cuidou de mim sem ajuda de homem nenhum. E eu perguntava: “Meu pai era bonito? Onde está meu pai?”. Esse livro vai abordar esses questionamentos de uma criança para a mãe. A ideia é que ele seja lançado ainda neste ano.


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