música Funk brasileiro: das raízes clássicas até a nova geração frenética Com transformações nas composições e letras, o ritmo nacional vive um momento de constante transição e mudança

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 07/08/2018 13:54 Atualizado em: 07/08/2018 13:59

DJ Marlboro um dos pioneiros acreditou na possibilidade de fazer um funk brasileiro. Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
DJ Marlboro um dos pioneiros acreditou na possibilidade de fazer um funk brasileiro. Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

No início da década de 1970, o ritmo funk, original dos Estados Unidos, invadiu o Brasil e começou a se espalhar pelas periferias por meio dos bailes. Com ritmos dançantes e alegres, as músicas tinham o objetivo de fazer todo mundo dançar, inclusive com coreografias que, até hoje, são recordadas pelos mais antigos frequentadores das festas.

Nessa época surgiu Fernando Luiz, um jovem que começou a se aventurar como DJ após se identificar com as batidas norte-americanas. Destacava-se por tocar nos bailes e era reconhecido nas comunidades cariocas. Quando chegou a década de 1980, Fernando passou a ser chamado pelo nome artístico, DJ Marlboro.

O DJ revolucionou o gênero. Após ser presenteado com uma bateria eletrônica, acreditou que o projeto de fazer um funk brasileiro era possível. "Com essa bateria eletrônica eu começo a fazer as primeiras músicas; e, aí ,acho o caminho para compor o funk brasileiro", diz Marlboro.

Desde então, tudo mudou. Com músicas que traziam uma batida eletrônica e contagiante, além de letras que retratavam a realidade da violência existente nas favelas, o produtor conseguiu introduzir a cultura brasileira no movimento. "O primeiro tipo de funk em português aqui no Brasil fui eu que lancei. Comecei a trabalhar o funk e a ganhar espaço como movimento cultural", relembra.

O sucesso se espalhou pelas ruas cariocas, ultrapassou fronteiras e tornou-se uma referência nacional no cenário da música. O pancadão e as rimas já eram reconhecidas, assim como os novos artistas. Claudinho e Buchecha, com muita simplicidade nas letras, marcaram época cantando composições que fazem sucesso até hoje, como Só love e Quero te encontrar.

Outra dupla de sucesso é Cidinho e Doca, que teve a música Rap da felicidade utilizada na abertura dos Jogos Olímpicos, com o refrão "Eu só quero é ser feliz" sendo cantado por todo o Maracanã. O single Rap das armas, trilha sonora do filme Tropa de Elite, também foi produzido por eles e conquistou o mundo. 

Mesmo sendo de uma geração mais antiga, os cantores continuam firmes em sua carreira atualmente. "Continuamos com nossa origem que é o consciente! A  gratificação é muito grande em ver que apesar de tantos anos passados, nossa música ainda continua em evidência em muitos lugares do mundo. Somos muito queridos tanto pelos internautas quanto a mídia em geral", afirmam Cidinho e Doca.

Mais luxo

O funk brasileiro contemporâneo conserva poucas características das primeiras versões. O ritmo continua sendo uma das referências musicais do país, mas passou por um processo de transformação, acompanhando a evolução social.

A transformação não é somente da música, mas do comportamento artístico de cada um dos estilos existentes dentro do funk. Duas vertentes diferentes do ritmo carioca se destacam atualmente.

Com letras que remetem ao luxo e à conquista de sair da favela, o funk ostentação nasceu em São Paulo, descentralizando a vertente carioca e inspirando composições famosas. Artistas como MC Guimê e MC Tchesko foram precursores desse estilo, conduzidos pelo Kondzilla, a maior produtora de conteúdo audiovisual de música eletrônica de periferia do Brasil e o maior canal do YouTube no país.

Outro estilo que vem se destacando cada vez mais é o funk pop brasileiro. Com letras menos pesadas e músicas mais melódicas, deixando de lado o batidão tradicional do funk, os artistas dessa vertente conseguem produzir músicas nas quais a principal referência é a voz.

Cantoras como Anitta e Ludmilla, que surgiram no funk carioca, são exemplos da transformação do funk pop. Ambas trocaram de nome artístico e optaram por seguir outra linha melódica, deixando as letras de cunho sexual de lado e cantando músicas que pudessem ser ouvidas por públicos de todas as idades, emplacando incontáveis sucessos no Brasil.

Já o músico Gaab, referência da nova geração, surgiu com uma levada R&B (Rhythm and blues) dentro das composições no funk pop, destacando mais o potencial vocal. Lançou funks que, por terem uma cadência lenta, ganharam versões acústicas, com destaque para Tem café.

Luiz Felipe, conhecido como FP do Trem Bala, começou no Youtube e conquistou muitos fãs. Foto: Reprodução/Youtube
Luiz Felipe, conhecido como FP do Trem Bala, começou no Youtube e conquistou muitos fãs. Foto: Reprodução/Youtube


Evolução

O mais recente estilo é o funk acelerado, também conhecido como 150 bpm (batidas por minuto), no qual o pancadão retorna como um elemento imprescindível, porém com maior intensidade e velocidade. As músicas trazem letras mais picantes, acompanhadas de um ritmo frenético, que tem a intenção de não deixar ninguém parado.

Assim como os funks de antigamente, o 150 bpm surgiu nas comunidades cariocas, no baile funk. Luiz Felipe Pereira Silveira, conhecido como FP do Trem Bala, é o artista que divulgou esse estilo de música, criado pelo DJ Polyvox. Por meio de uma brincadeira em um canal do YouTube, o FP ganhou espaço pelo Rio de Janeiro e as composições lançadas tomaram conta das playlists dos mais jovens.

"Eu comecei no YouTube e alguns seguidores gostaram do meu som, e eu ainda não tocava nas casas de show. Começaram a pedir show, para que eu virasse DJ mesmo, porque até então, era por diversão. E hoje eu consigo conciliar a diversão com o trabalho. E não há nada melhor do que fazer as pessoas dançarem", conta Felipe, que já realiza shows por todo o Brasil.


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