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Música Aborto Elétrico, que originou Legião Urbana e Capital Inicial, faz 40 anos Grupo foi um dos pioneiros no punk e revelou canções que se tornariam clássicas

Por: Alexandre de Paula

Publicado em: 13/03/2018 15:47 Atualizado em:

Renato Russo, Fê e Flávio Lemos. Foto: Facebook/Reprodução
Renato Russo, Fê e Flávio Lemos. Foto: Facebook/Reprodução


Foi em janeiro de 1980 que Renato Russo, Fê Lemos e André Pretorius subiram ao palco pela primeira vez com o Aborto Elétrico, em Brasília. A banda punk, que surgiu da empolgação de três adolescentes, mudou a música brasiliense e se tornou o ponto de partida para um movimento que alcançaria o país inteiro. A história do Aborto Elétrico, no entanto, começa um pouco antes. Quarenta anos atrás, em 1978, quando os adolescentes Renato e Fê se conhecem em uma festa e se tornaram amigos pelo improvável gosto em comum, o punk rock, movimento que já fazia a cabeça dos jovens na Inglaterra, mas era praticamente desconhecido no Brasil.

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Além da paixão pelo punk, Renato e Fê tinham o desejo de fazer música e de ter a própria banda. "Quando conheci o Renato, eu encontrei um cara que também queria fazer uma banda de punk rock", lembra Fê. Segundo o atual baterista do Capital Inicial, A vontade se materializou quando Renato recrutou o guitarrista sul-africano André Pretorius. "Então, juntou baixo, bateria e guitarra e a gente começou a ensaiar na Colina (área onde os professores da Universidade de Brasília residiam) no final de 1978".

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Foi também naquele ano que ocorreu a reunião que decidiria o polêmico e inusitado nome da banda. Muito se fala de uma possível lendária referência a uma moça que sofreu aborto depois de um choque de cassetete dado por um militar em uma manifestação contra a ditadura, mas, segundo Fê, a história é mais prosaica. Renato, André e Fê marcaram uma reunião embaixo do bloco A da colina da UnB, onde a família de Fê Lemos morava, para decidir como seria batizado o grupo. Fê tinha ouvido falar de uma banda americana obscura chamada Electric Flag (Bandeira Elétrica) e a ideia da eletricidade ficou na cabeça.

"Tijolo elétrico", sugeriu a Renato e André, que olharam com cara de "nem pensar". Em um estalo, porém, o sul-africano rebateu com o novo nome. "O André deu um pulo e falou: 'Vamos chamar de Aborto Elétrico'. E aí a gente se olhou e disse: 'Esse é o nome'", conta Fê. Em 1979, o Aborto sofreu uma baixa. Pretorius voltou à África do Sul para servir ao exército do país e a banda ficou sem guitarrista. "A gente procurou e tentou vários outros por uns seis meses, mas ninguém sabia tocar punk rock", recorda Fê. No fim do ano, Pretorius passou o Natal em Brasília e os amigos se juntaram para tocar novamente.

Renato se esforçou e conseguiu o show no bar Só Cana. As histórias em torno da apresentação são muitas. Uma delas é de que Pretorius quebrou a palheta, cortou os dedos e tocou mesmo sangrando. Fê Lemos vestia um casaco de lã por cima da camiseta e sentia muito frio. O baterista ainda não sabia, mas estava com sarampo. "Amanheci cheio de manchas vermelhas no corpo e, no dia seguinte, nós tocaríamos de novo, mas não nos apresentamos, para desapontamento do Renato e do André. Eles passaram lá em casa e eu estava debaixo de cobertor e disse que não conseguiria ir".

Muito tímido, Renato ainda não cantava e o Aborto tinha cinco ou seis músicas instrumentais. "A gente repetiu umas três, quatro vezes cada uma e juntou uma galera que nunca tinha ouvido aquilo antes. Estavam lá amigos e o pessoal da Blitz 64, mas eram poucas pessoas que conheciam o Aborto até então". A apresentação no Gilberto Salomão foi a primeira e a única de Pretorius, que voltou para a África do Sul. Ele morreu em 1987 de overdose de heroína, já na Alemanha.

O Aborto passou meses procurando um substituto para Pretorius, mas o que viria ser a clássica formação da banda surgiu quando Flávio Lemos, irmão de Fê, assumiu o baixo, Renato foi para a guitarra e, pronto, o Aborto podia se apresentar novamente. Com a proposta de chegar e tocar, o Aborto fez barulho e chamou a atenção. O estilo era diferente do que se costumava ouvir e se conectava mais com a vivência dos jovens brasilienses naquele momento.

"Diferente do que a gente ouvia antes, que eram letras com coisas esotéricas ou sobre assuntos que você não entendia, o punk, com a sua urgência e com a questão da vida do jovem na cidade, falava mais diretamente a mim", diz Fê. O punk, assim como aconteceu na Inglaterra, se tornou uma música que dialogava com o contexto do momento e era uma alternativa aos estilos até então dominantes. "Nosso tema maior era elevar o indivíduo acima da massificação. Enquanto a juventude se perdia na mesmice da discoteque, nós nos propúnhamos a trabalhar com ideias. Sim, porque os punks lidam com ideias. Nossas letras falavam de aborto, sexo, política, droga, violência, hipocrisia", destacou Renato Russo em uma entrevista ao Correio Braziliense, em 1983.

Paulo Marchetti acredita que o punk ganhou força por se aproximar mais dos jovens naquele período, até porque o rock antes estava cada vez mais complexo e elaborado. "O punk quebrou isso. O rock começou a ficar chato, muito barroco, cheio de fru-fru. Tudo muito difícil e distante do público, do moleque roqueiro que tinha sonho de também ser roqueiro. O punk veio com a ideia de 'só quero fazer um som' e mostrou que bastavam poucos acordes para fazer algo legal", avalia Marchetti, ele mesmo vocalista de um dos grupos do anos 1980, o Filhos de Mengele. 

Baixista da Plebe Rude e amigo de André Pretorius e Fê Lemos, André Mueller também reconhece no Aborto um grupo que abriu portas para as novas bandas. O Aborto mostrou que era possível fazer algo naquele momento que não era MPB e que era música para os jovens. Vivíamos numa época em que ou você era de esquerda e fazia MPB ou era um caretão de direita, não existia meio termo. Os punks sempre foram a terceira via (ou via nenhuma). E o Aborto era isso".

Autor do livro Renato Russo: O filho da revolução, o jornalista Carlos Marcelo acredita que o Aborto fez o rock de Brasília entrar em uma nova fase. "Até então as bandas eram mais influenciadas pelo som progressivo e pela MPB. O Aborto estabelece uma conexão direta com o que estava acontecendo lá fora, com a crítica social e política, e isso é expresso nas letras", explica. Foi no verão entre 1981 e 1982 que o Aborto começou a ruir. Fê e Flávio Lemos viajaram para passar as férias e Renato ficou em Brasília. Em janeiro de 1982, lembra Fê, houve um convite para o Aborto tocar em um festival e Renato topou mesmo sem os parceiros de banda na cidade.

Era o início do Trovador solitário, dos shows que Renato fez só com voz e violão e que tinham canções como Faroeste caboclo e Eduardo e Mônica. Quando Fê e Flávio voltaram das férias, Renato já não queria mais tocar na banda. Na opinião de Fê, Renato queria alcançar um público maior. "O que eu acho é que o Aborto era muito querido pelos fãs, mas fora deles não era bem-visto pela comunidade cultural brasiliense", acredita. "Renato entendeu naquele momento que ele já era maior que o Aborto e 
era uma camisa de força para ele como artista. Ele percebeu que já tinha condições de andar com as próprias pernas e fazer a banda dos sonhos".

Carlos Marcelo aponta que o Aborto, para Renato, foi uma etapa. "Ele percebeu que era preciso absorver influências mais variadas em sintonia com o que acontecia lá fora, ele acompanhava o movimento internacional e ampliou suas referências. O Aborto é uma pedra fundamental, um alicerce, mas tinha um momento para acabar".

Flávio e Fê se juntaram ao guitarrista Ico Ouro Preto e seguiram ensaiando. Num show marcado para o Centro Olímpico da UnB em 1982, Ico não apareceu. Tinha medo de palco e desistiu de tocar. O local estava cheio e Renato fazia parte do público. Fê chamou Renato para tocar com o Aborto uma última vez. E Renato topou. "Foi uma catarse, um momento épico. Pela primeira vez, a gente viu um grande público para uma banda que costumava tocar na calçada. Todo mundo cantou Que país é esse?. Foi um final bonito e emocionante. O Aborto ali cumpriu o seu papel na história da música brasileira", detalha Fê. "A partir daí, o que cabia era começar uma nova banda, não parar, não desistir, mas tocar e criar um novo grupo, e foi isso o que aconteceu com o Capital Inicial e com a Legião Urbana".

Entrevista // Fê Lemos

Fê Lemos é atualmente baterista da banda Capital Inicial. Foto: André Carvalheira/Divulgação
Fê Lemos é atualmente baterista da banda Capital Inicial. Foto: André Carvalheira/Divulgação


Como vocês se juntaram na banda? Você, Renato e André Pretorius...
Quando eu conheci o Renato, eu encontrei um cara que queria fazer uma banda de rock. E eu também queria tocar. A gente queria fazer uma banda, mas ela só se materializou quando o Renato conheceu o André Pretorius, porque o André tocava guitarra e também queria fazer uma banda. Então, a gente começou a ensaiar no fim de 1978.

A ideia e a gênese do Aborto vêm no fim de 1978, então...
Vêm exatamente do encontro desses três amigos. Foi no segundo semestre de 1978 que a gente teve a reunião em que decidimos pelo nome da banda e os primeiros ensaios também aconteceram no final de 1978.

Por que o punk conquistou vocês? E como a atitude do punk se relacionava com aquele período de ditadura?
No meu caso, era um jovem e ouvia rock progressivo antes, ouvia heavy metal, ouvia Beatles, (Rolling) Stones. Estava muito ligado a isso, mas quando eu ouvi punk pela primeira vez, eu fiquei em choque, porque era uma música tão simples e direta. Na primeira vez que eu ouvi Ramones, achei ruim, mas quis ouvir de novo e ouvi mais três vezes e aí já não estava mais achando ruim. Pelo contrário, estava sentido a urgência daquele rock e a ligação dele com aquilo que eu estava vivendo. Assim foi com o punk rock na Inglaterra. Eles tinham uma ligação com o tempo que a gente estava vivendo.

Essa urgência do punk tinha a ver também com o que vocês queriam dizer?
Sim. Aí as letras falavam sobre a vida daquele momento, eram coisas diretamente relacionadas com a sua vida. Diferente do que ouvia antes, que eram letras com coisas esotéricas ou sobre assuntos que você não entendia diretamente. O punk falava mais diretamente a mim. Em Brasília, quando o Renato começa a cantar, em 1980, as letras dele também são urgentes, são sobre a cidade, sobre o contexto político e social. A gente conseguiu, com o Aborto, criar uma banda com som punk, original, inspirada naquelas, mas, com um texto que era brasileiro, aí vem o grande mérito do Renato. Além da crítica, havia questões existenciais, ditas de uma maneira que eu nunca tinha ouvido no rock brasileiro.

Fala-se muito das histórias da baquetada e da letra de Química como fatores para o fim da banda...
Aquilo era bobagem. Inclusive, a baquetada aconteceu no final dos anos 1980, bem antes do fim mesmo. E foi um evento menor na nossa história. Foi só uma briga entre amigos. Eu, claro, me arrependo muito até hoje, não acho que tenha que jogar nada em ninguém, não é por aí. Mas o Renato era um cara extremamente difícil. Nesse dia, em particular, ele sumiu e me deixou com o Flávio montando equipamento e depois ele apareceu com a tal oração para o John Lennon. Eu pensei: "Que filho da mãe, podia ter falado com a gente". Então, nessa história, eu também vi que o Renato tinha agenda própria. Mas, de novo, a baquetada não tem nada a ver com o fim da banda. 

Com o último show no Centro Olímpico, em 1982, vocês definiram que não continuariam sem o Renato, de fato, e começaram um novo caminho...
Com esse show ficou claro que sem o Renato não existia Aborto, sem ele, que era o principal autor, o cara da voz, era uma banda sem carisma. O que cabia era começar uma nova banda, não parar, não desistir, mas tocar e criar um grupo novo e foi isso o que aconteceu. Quando a gente começa o Capital, não tem nada a ver com o Aborto. Já é algo mais funkeado, com guitarras limpas. O Capital começa a criar uma nova sonoridade que eu achava mais bacana. Então, não fica um peso por isso, mas claro que fica uma perda pelo fim do relacionamento diário com o Renato.

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