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Cinema Médium João de Deus e curas atribuídas a ele são tema de filme Cineasta carioca Candé Salles se propõe a contar o cotidiano de um centro de tratamento espiritual que recebe milhares de pessoas por ano

Por: Ricardo Daehn - Correio Braziliense

Publicado em: 12/03/2018 16:15 Atualizado em: 12/03/2018 16:17

Foram cinco anos para a produção do filme. Foto: Breno Fortes/CB/D.A Press
Foram cinco anos para a produção do filme. Foto: Breno Fortes/CB/D.A Press


Com o projeto de cinema de transformar a trajetória do médium João de Deus em documentário, o cineasta carioca Candé Salles se viu em uma encruzilhada durante uma visita à Suíça, há cinco anos. Em uma adiantada fase de gravações, ele notou que havia uma certa resistência por parte de João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, que, por vezes, percebia a câmera e não se mostrava presente por inteiro. Em um breve diálogo, as coisas se resolveram. "Tenho que filmar tudo", ponderou o diretor, ao que João de Deus questionou: "Você vai fazer um filme sobre a verdade?". Candé respondeu que sim, e João foi direto: "Então, pode filmar o que quiser". O resultado de tanta liberdade poderá ser conferido no filme João de Deus: O silêncio é uma prece.

Sem definição de limites e atento aos movimentos na Casa Dom Inácio de Loyola (sede para os feitos de João de Deus), Candé Salles partiu para a investigação de fenômenos que desafiam a mera racionalidade, como a forte impressão sentida diante da cura da mulher de um amigo, que  disse ter superado um câncer na cabeça graças a João. Começaram aí a pesquisar o poder emanado pelo médium que fixou residência em Abadiânia (interior de Goiás).

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Ao consultar sobre a disponibilidade de João para a realização do filme, que tem duração de 80 minutos, Candé assumiu uma missão: teria que buscar uma espécie de autorização do Doutor Augusto de Almeida, espírito costumeiro na lida de João de Deus. "Falei da minha vontade com o filme, sobre a escolha do tema, e fui surpreendido quando ele disse: 'Fui eu que te escolhi'. Houve, então, a sinalização, mas ele me alertou que eu estava 'sujo', completando: 'Deixa eu te limpar'. Ali, começou minha viagem de autoconhecimento e o processo de entendimento", observa o cineasta.

O realizador não tem dúvidas sobre o sucesso da empreitada. Mostrado no Festival do Rio e com direito a três sessões lotadas no MIS (São Paulo), O silêncio é uma prece repercutiu. Marcado pelas cores azul e branca na concepção visual, uma lembrança da liberdade e da igualdade, o longa foi feito com baixo orçamento. "O filme reflete um colorido que combina com a representação de alegria. É um filme de amor. As pessoas me agradeciam, abraçando bastante. Fiquei feliz. Filmar o sobrenatural é algo difícil. Muitos entendem e se sensibilizam", comenta o diretor.

O longa-metragem traz farto material inédito, com apoio apenas de uma imagem de arquivo, registro do encontro de João de Deus com Chico Xavier. "Eles eram amigos e se adoravam", avalia Candé Salles. Na condição de cineasta, o diretor travou contato com o homem que, analfabeto funcional (é notório que João não lê nem escreve), domina uma prática escorada em fundamentos de pureza. "Fui arrebatado, no coração, por sentimentos de paz, amor e leveza. Em Abadiânia, fiquei admirado com a casa da sopa, destinada a necessitados, e com a tranquilidade alcançada na casa de meditação", comenta o diretor. "Na casa de meditação, vi as ondas de amor e de saúde. Presenciei a realização de vários desejos dos frequentadores", reforça. Viagens a cada mês, além de uma temporada durante a qual morou na Casa Dom Inácio de Loyola por meio ano, formataram a visão de Candé Salles, cujo filme terá pré-estreia em maio. 

"Fui lá para fazer um filme. Não acreditava necessariamente no trabalho dele. Todas as descobertas foram muito orgânicas. E a verdade filmada está lá. Vi muitos milagres: pessoas foram curadas na minha frente. Dia a dia, vi as mensagens do João de Deus para os pacientes, sempre repetidas com o mesmo entusiasmo", explica. Católico, mesma crença que orienta João de Deus (que, recentemente, teve uma filha batizada), o cineasta conta que ficou adepto da "passiflora" (medicamento extraído da natureza e com manipulação em farmácia local). "É algo que traz muita paz, serve como guia e nos limpa. Uso como uma espécie de ato energético, que estimula nossa conexão com valores positivos", avalia. 

O cineasta salienta que João de Deus é um "apaixonado pela obra de médicos" e que, na Casa Dom Inácio de Loyola, os funcionários são encorajados a reforçar que as pessoas que passam por lá nunca abandonem consultas e tratamentos médicos. "Ele defende medidas em paralelo. João ama médicos, profissionais que ele respeita demais e que considera os 'verdadeiros médiuns de Deus', sempre dedicados, nas 24 horas de cada dia", sublinha.

A roteirista Edna Gomes, que há mais de sete anos convive com o médium. Foto: Cygnus Media/Divulgação
A roteirista Edna Gomes, que há mais de sete anos convive com o médium. Foto: Cygnus Media/Divulgação


Roteiro da cura 
Integrada à rotina do médium há mais de sete anos, a roteirista Edna Gomes conta que parte importante na espinha dorsal do longa está relacionada a constatações de cura. "O tempo de cinco anos para o filme trouxe essa possibilidade. A ideia foi mostrar o olhar macro das pessoas, elas têm que olhar para dentro de si. Buscamos mostrar o que é o silêncio no processo de cura e reforçar o que João, um verdadeiro missionário de Deus, diz: que a cura está dentro de cada um. Há algo inexplicável na obra dele, ele tem enorme magnitude", conta Edna, que assina o primeiro roteiro. Estudiosa incansável do espiritismo, Edna ressalta que chegou à missão atual por um processo de dor emocional. "Tinha algo de soberba e, antes, trazia um olhar muito individual", admite.

Em paralelo às obras de caridade, a vida pessoal de João de Deus está repassada no documentário. Há 19 anos juntos, Ana Teixeira e João de Faria viram a câmera de Candé Salles captar até mesmo o pedido de casamento, feito por Ana, há três anos. Mesmo a fase difícil, quando o médium seguiu para o Hospital Sírio-Libanês a fim de tratar de um câncer no estômago, está no filme. "Teve enorme valor testemunhar o amor lindo e o companheirismo de João e Ana, exposto pela primeira vez no filme. Foi gratificante perceber como me confiaram a intimidade", diz o cineasta. 

Tratamentos visíveis e registrados em depoimentos para o filme marcaram Candé Salles. "Vi muita gente sair sem nada de dor e também acompanhei relatos incríveis. No João de Deus, detectei 'ego zero'. Ele nem tem vontades para si. Está sempre preocupado em entender as necessidades dos outros. Ele se doa demais, pelo próximo", descreve o cineasta. Aos 42 anos, assume ter sido "contaminado", outrora, pelos universos do cinema e da moda. "É onde se quer sempre o melhor", diz. No currículo, Candé Salles traz certo paparico do júri popular do 22º Festival Mix Brasil (2014), quando o longa anterior, Para sempre teu, Caio F., foi premiado como o melhor da mostra. 

Com a produção de João de Deus: O silêncio é uma prece, o diretor percorreu circuito em cidades da Alemanha, da Suíça e dos Estados Unidos. "A partir do filme, mudei minha postura com os outros. Entendi que coisas, objetos não são importantes. Não importa cargo profissional, a bolsa que alguém usa, a aparência. Passei a dar mais carinho e atenção para os outros. O gesto de estender um prato de sopa para quem precisa, por exemplo, é tão modificador. Com o filme, passei a olhar para todos. Me atento a atos que possam ajudar as pessoas", afirma.

O cineasta Candé Salles ao lado de João de Deus. Foto: Cygnus Media/Divulgação
O cineasta Candé Salles ao lado de João de Deus. Foto: Cygnus Media/Divulgação


Entrevista // João de Deus 

O que levou o senhor a aceitar a produção de um filme? 
A produção do filme O silêncio é uma prece retrata a verdade sobre o meu trabalho, e isso o diretor Candé Salles e a roteirista e jornalista Edna Gomes souberam revelar muito bem. Fiquei muito feliz com o resultado do documentário. 

Como lida com a condição de atender celebridades? 
Eu não me importo se é ou não celebridade, eu me importo com pessoas e todos, na Casa de Dom Inácio, são tratados igualmente. Eu sigo, na minha trajetória, a minha missão, com Deus ao meu lado. 

Como percebe as desconfianças de autenticidade que podem cercar seu trabalho? 
Eu não ligo! São 65 anos me dedicando ao próximo, me dedicando o máximo possível em levar amor para as pessoas. A minha verdade é o amor incondicional que sinto por Deus. 

Que riqueza brota da filantropia?
A felicidade brota das coisas simples. A filantropia é o maior bem que podemos fazer aos outros. Eu passei fome e o que eu posso fazer enquanto for vivo é alimentar quem precisa. Por isso, fundei a Casa da Sopa em Abadiânia, presidida pela minha mulher, Ana Teixeira.

Há pessoas que carregam o dom do não. Houve quem não se curasse diante de seus esforços?
Eu não curo ninguém, quem cura é Deus. Eu sou apenas o seu humilde missionário que foi escolhido por Ele. Se as pessoas não tratam de sua alma, eu não consigo fazer milagres. A cura está dentro de você. A pessoa deve perceber quando sua alma lhe mostra o caminho. Apenas escute-a, e o resto ficará bem.

Que conselho daria a quem resiste procurar por cura?
Eu não dou conselhos para quem resiste em procurar o seu silêncio.

Como o senhor lida com a fragilidade da morte? Qual o aprendizado quando esbarra com tropeços e mortes durante seus procedimentos (se for o caso)?
A única certeza que eu tenho é da morte, e não tenho medo dela. Eu sou apenas um servo de Deus. Nunca perdi ninguém durante as minhas intervenções espirituais, porque tenho as entidades de luz ao meu lado que iluminam a todos que estão na Casa de Dom Inácio. Eu sou um homem de fé! 

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