Polêmica Nome de festa incendeia movimento hip hop em meio a discussão sobre feminismo Organizadoras acusam rappers de serem machistas

Por: Emannuel Bento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 08/03/2018 08:13 Atualizado em: 08/03/2018 04:42

Grupo 808 Crew é um das atrações do evento. Foto: Nathalia Verony/Divulgação
Grupo 808 Crew é um das atrações do evento. Foto: Nathalia Verony/Divulgação


O evento de hip hop GeraBuceta será realizado nesta quinta-feira (8), no Dia Internacional da Mulher, com uma programação composta apenas por mulheres. A intenção é estimular o protagonismo feminino no rap, dialogando simultaneamente com o feminismo e o movimento negro. Apesar disso, a festa causou polêmica no nicho musical pelo seu nome - um termo que se tornou uma espécie de "grito de guerra" entre as feministas deste meio. Através das redes sociais, alguns rappers e fãs do gênero alegaram que o título "vulgariza" e "desrespeita" as mulheres e o próprio movimento hip hop. "Nunca vi um homem do rap fazendo evento com essa falta de respeito. Não somos contra o evento de vocês, só não concordamos com a falta de respeito", escreveu um dos internautas. "Essas 'bucetas' não representam o rap, muito menos a luta das mulheres de verdade", contestou outro.

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Realizada na Galeria Arvoredo (Rua Gervásio Píres, 436, Santo Amaro, Recife), a programação da festividade conta com nomes da cena rap local como 808 crew, Femigang, Negrita MC e as DJs Iara Afrodite, Brisa e Mayara Cajueiro, além da participação especial da MC carioca Taz Mureb. MJ e Lilo MC serão as mestres de cerimônia. Poetas dos coletivos Recital Boca No Trombone e Slam das Minas PE também marcam presença na noite. Os ingressos estão sendo vendidos por R$ 10, com entrada grátis para transexuais - quem quiser obter a gratuidade deve enviar uma mensagem com nome completo para o inbox da página do Aqualtune, coletivo responsável pela organização do evento.

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Em resposta às críticas, a Aqualtune publicou uma nota de repúdio contra as publicações, afirmando que muitas das mensagens carregavam teor "misógino, puritano, zombador e desrespeitoso". Algumas das postagens chegaram a ter tom ameaçador: "Quer direito igual marca um canto para nós 'trocar' bala", escreveu um rapper. Após intensa discussão nas redes, grande parte das postagens em crítica ao evento foram deletadas. Diante de algumas ameaças, a produção recebeu apoio da Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop, incluindo orientação jurídica de como proceder "caso fosse necessário". A nota de repúdio divulgada pela produção também defende que o termo "gera buceta" é bastante usual entre o público-alvo da festa, buscando representar uma geração de MCs que "desconstrói padrões, reivindica direitos, pauta discussões e busca novas formas de existir".

Em entrevista ao Viver, a produtora e jornalista Lenne Ferreira explica que, inicialmente, a celebração se chamaria Mestras Sem Cerimônia, título posteriormente alterado a pedido das artistas. "As meninas queriam um nome mais descontraído e acabaram optando por GeraBuceta, que é um termo muito citado por elas", conta. Apesar das críticas, ela afirma que o estranhamento com o nome do evento não foi unânime entre os rappers da cena local: "Tem muitos que apoiam, mas existem outros que são de uma linha mais 'dura', que inclusive é uma geração mais antiga. A geração de hoje consegue dialogar melhor com isso".

Tássia Seabra, outra produtora da Aqualtune, faz questão de esclarecer que a desaprovação não é exclusiva dos homens ligados ao hip hop, mas da sociedade como um todo: "Teve gente que não admitiu, mas sentiu estranhamento. 'Buceta' é uma palavra que é usada de forma pejorativa, mas não para as meninas envolvidas com a festa". Ela ainda afirma que vivemos em um momento de transição, o que naturalmente acaba gerando estranhamentos. "Contudo, fico triste que tenham visto tanto o nome do evento e pouco o trabalho das meninas".

A reprovação nas redes também gerou reações entre as atrações evento, a exemplo da Negrita MC. "Muitos dos homens que fizeram as publicações em algum momento já disseram que temos um trabalho foda, que deveríamos estar na cena. No entanto, achei as críticas machistas. Vi muita gente criticando sem ao menos saber a origem do nome", diz a jovem. "Devemos ser respeitadas não apenas pelos nossos trabalhos, mas pelo respeito pelo humano em si", desabafa. Com ou sem polêmica, ela garante que a noite será embalada por rap, poesia e até funk: "O evento é para todas as mulheres, independente de cor e classe social".

Confira a nota de repúdio na íntegra:

"Desde que a programação da festa #GeraBuceta foi anunciada, alguns homens se esforçam em deslegitimar o evento. Mensagens com insultos e até ameaças trouxeram à tona o peso do patriarcalismo na vida das mulheres. O tom misógino, puritano, zombador e mesmo desrespeitoso nos mostra que ainda precisamos lutar muito para conseguirmos exercer a autonomia sobre os nossos corpos. Não é desejo da Aqualtune, uma produtora independente que visa contribuir para o fortalecimento de artistas negros, especialmente mulheres, incitar o ódio nem mudar um pensamento que nos rege apenas com uma festa - existe uma luta sendo construída muito antes de nós. Entendemos que muitos homens, e até algumas mulheres, reproduzem um comportamento comum numa sociedade misógina e machista. Mas não podíamos deixar de responder a tantos insultos e aproveitamos o momento para ampliar a discussão sobre o empoderamento feminino. Quem frequenta batalhas de recital de poesia e encontros feministas na cidade, já cansou de ouvir o grito "GERABUCETA". Vivemos um momento em que as mulheres se organizam e movem a sociedade. Berram por autonomia. É uma geração que desconstrói padrões, reivindica direitos, pauta discussões e busca novas formas de existir. É a geração BUCETA, sim, nas pode chamar de "XOTA" ou "XANA", "PEPECA"... É a geração que não tolera mais figurar em clipe de MC apenas como objeto. Que bate mesmo a raba no chão, mas exige respeito, que luta para ser o que quiser e onde quiser. Não estamos pedindo permissão. Não precisamos de permissão".


SERVIÇO
GeraBuceta, com 8 0 8 crew, Femigang, Negrita MC, DJs Brisa, Mayara Cajueiro e Iara Afrodite

Onde: Galeria Arvoredo (Rua Gervásio Píres, 436, Santo Amaro, Recife)
Quando: quinta-feira (8), às 21h
Quanto: R$ 10

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