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Reconhecimento Diretora de redação do Diario é homenageada com Prêmio Tacaruna Mulher Vera Ogando receberá nesta quarta-feira, às 19h, a honraria na categoria Comunicação

Por: Silvia Bessa

Publicado em: 07/03/2018 12:21 Atualizado em:

Jornalista foi a primeira setorista esportiva de Pernambuco. Foto: Renato Filho/Divulgação
Jornalista foi a primeira setorista esportiva de Pernambuco. Foto: Renato Filho/Divulgação


A primeira vez em que Vera Ogando varou a noite em função do jornalismo tinha 21 anos. Acabara de chegar à redação do jornal O Tabloide, um semanário esportivo recifense que funcionava em regime de cooperativa. "Não tenho vaga. Se você quiser ir ficando, traga a matéria", disse Olbiano Silveira, o editor. Uma semana depois, debaixo do braço, tinha o texto. "Você leva jeito, mas é muito prolixa. O assunto principal está no terceiro parágrafo", reclamou, mas não alterou a redação. "Concluí que estava abafando". Ela tentou emplacar a segunda matéria. Foi quando cruzou a madrugada. Dessa vez, escreveu uma crônica, mais para literatura. Sem entrevistas, sem apuração da primeira palavra ao ponto final. "Ele ficou tão bravo que nunca esqueci desse dia". Tirou a lição.

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O sangue de Vera Ogando, diretora de redação do Diario de Pernambuco há 16 anos, já era de repórter. Tornou-se uma das melhores, disputada pelos jornais de Pernambuco e do Sudeste - e recusou convites para trabalhar em O Globo, na revista Veja e no jornal Gazeta Mercantil - até que, com 38 anos, chegou ao cargo máximo editorial de uma empresa de comunicação.

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Na semana seguinte à bronca, ouviu na arquibancada do estádio do Santa Cruz jogadores dos juniores reclamando que estavam passando fome. No outro dia, estava infiltrada na sede do clube junto com um fotógrafo. "Comiam pão com ovo. As condições de treinamento eram muito ruins". A reportagem credenciou o ingresso como repórter no Jornal do Commercio - onde se tornou a primeira mulher setorista de futebol do estado. 

Foi correspondente da Folha de S.Paulo, depois do Jornal do Brasil em tempos de Zuenir Ventura, Arthur Xexéo, Ancelmo Gois e Xico Vargas ("Quase cinco anos de uma grande escola para mim"). Coordenou a assessoria de imprensa da Secretaria da Fazenda de Pernambuco, fez campanhas políticas, foi chefe da editoria de Economia na época do escândalo dos precatórios até a ascensão à chefia da redação do Diario. Vera diz que teve sorte, cita inúmeros colegas que ajudaram na sua formação, como Luzanira Rêgo, Sílvio Oliveira, Terezinha Nunes, Divane Carvalho, Ana Dubeux, Fernando Castilho, Marisa Gibson, Letícia Lins, Yvana Fechini, Antônio Portela, Lenivaldo Aragão, Evaldo Costa, Luiz Recena, Romildo Porto e Olbiano Silveira. Sorte não é. Trajetórias assim, precoces e robustas, são feitas de talento.

Pelos seus 33 anos de inquietude em busca da notícia de qualidade, de reportagens e de jornalismo comandando decisões de bastidores, Vera Ogando receberá nesta quarta-feira, às 19h, o Prêmio Tacaruna Mulher 2018 na categoria Comunicação, na Praça de Eventos do shopping. Indicada por personalidades de Pernambuco, seu nome foi submetido a duas comissões julgadoras. Até aqui, centenas de noites maldormidas. "Coloquei o jornalismo à frente de qualquer coisa na minha vida e sempre fui movida por desafios".  Valeu a pena? Sem hesitar, responde: "O jornalismo sempre vai valer a pena, se for sua vocação".

Diretora de redação do Diario de Pernambuco ocupa o cargo há 16 anos. Foto: Blenda Souto Maior/DP
Diretora de redação do Diario de Pernambuco ocupa o cargo há 16 anos. Foto: Blenda Souto Maior/DP

O gosto pelas notícias e pelas letras veio de berço e de uma família humilde, formada por uma pernambucana e um espanhol da região da Galícia que se conheceram em uma lanchonete do Recife e viveram entre os bairros de Tejipió, Cajueiro (no Recife) e Bairro Novo e Jardim Atlântico (em Olinda) até a morte. É filha única dos dois e tem um irmão por parte de mãe, Amaro Mendes. Os pais contaram com boa ajuda de Dona Biu, uma senhora que trabalhava na casa da vizinha. No turno da noite, Biu  visitava a residência da família Ogando para ensinar o bê-a-bá a Vera (ela acabou por entrar na alfabetização já sabendo ler) e, depois, a dona Severina, mãe de Vera. "A falta de estudos de mamãe foi o grande trauma da vida dela. Vibrou muito quando ouviu meu nome na televisão". Vera estudou na Universidade Católica e fez seis especializações junto ao Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS-SP), o parceiro brasileiro da Universidade de Navarra (Espanha).

Dona Severina Ogando de Lira tinha paixão por rádios e o som emitido por eles invadia a modesta casa coberta de telhas de cerâmica. "Quando criança, ouvia a voz de um homem falando o dia todo. Era dos noticiários". Seu Francisco Ogando Troitiño - carpinteiro, atravessador de verduras, negociante da área de farmácias e de carnes - trabalhava muito, mas tinha por hábito comprar o jornal impresso para ler todos os dias, sobretudo este, pelo qual a filha Vera responde há quase duas décadas. "Papai tinha ideia fixa quanto à minha formação educacional". Muito antes de a família se mudar para a elogiada casa do banheiro rosa ("era a sensação na época ter um banheiro com piso e paredes de cerâmica"), terraço em formato de "L" e nascente para o Sol, situada na Rua Virgílio de Melo Franco, em Cajueiro.

Jovem tímida, chegou a duvidar se preferia o caminho do jornalismo ou da psicologia ("Nunca me arrependi da minha escolha"). Canalizou a rebeldia própria da idade para definir objetivos desde cedo. Para os primeiros salários, o plano não era carro, gastos com beleza. A ambição era ter uma casa própria.

Como gestora, executiva de imprensa do concorrido mercado pernambucano e como mulher, Vera amadureceu: "Acho que hoje é mais fácil harmonizar as diferenças. Vejo o perfil de cada pessoa com mais clareza. Sou muito observadora e aprendi que cada um tem seu estilo". Vera mudou. Uma característica, ao menos, ficou intacta: "Continuo impaciente e inquieta". É o jornalismo, agitado, circulando nas veias. 

Coberturas marcantes

A trajetória profissional de Vera Ogando na redação do Diario é marcada pelo envolvimento intenso em coberturas jornalísticas de casos marcantes para a história do estado. Editora assistente de Economia, ela participou ativamente da produção de notícias sobre o escândalo dos precatórios, irregularidade na emissão de títulos públicos nos anos 1990.  

Já na editoria executiva, coordenou as matérias sobre a tragédia do Circo Vostok, no ano 2000, quando um leão atacou e matou um garoto. A investigação das circunstâncias demonstrou os maus-tratos praticados contra os animais - mantidos famintos - e a recorrência de irregularidades por parte dos administradores do picadeiro. A cobertura contribuiu com a reflexão sobre o uso de bichos selvagens como peças de lazer sob lonas. 

O olhar sobre tragédias fruto da combinação de fenômenos naturais com omissão humana também fazem parte da carreira no Diario. As enchentes na Mata Sul, nos anos 2000 (cenas reprisadas nesta década no Litoral Sul), mereceram atenção especial das equipes sob comando de Vera, com envio de repórteres e fotógrafos aos locais afetados e o mapeamento minucioso da notícia para abranger todo o perímetro dos fatos. Tratamento similar teve a cobertura do desabamento dos edifícios Erika e Serrambi, em Olinda.

Situações de desafio à segurança pública contaram com sistemático acompanhamento jornalístico da diretora de redação. Por três meses, Vera coordenou o tratamento pelo jornal do Caso Jennifer, como ficou conhecida a investigação do assassinato da alemã Jennifer Marion Nadja Kloker, 22, arquitetado e executado pelos familiares. A versão inicial dos parentes, desmontada pela polícia e pelas matérias do Diario, atribuía o crime de 2010 a sequestradores. 

A filosofia da cobertura diária aplicada por Vera não prescindiu da valorização de reportagens mais aprofundadas, materializadas em séries e cadernos especiais. O modelo contribuiu para o reposicionamento do Diario no mercado, como produtor de jornalismo diferenciado. "Os prêmios que o repórter especial Vandeck Santiago ganhou com o caderno especial Francisco Julião: Luta, paixão e morte de um agitador (de 2004) representaram uma virada para a gente. A partir de então, sistematizamos a produção dessas reportagens especiais, ganhamos premiações, o jornal voltou a ter luz e identidade nacional e recuperamos o que tinha sido deixado para trás".

Vera dirigiu ainda a expansão de produtos. Em 2008, gerenciou a criação do Aqui PE e a implantação do diariodepernambuco.com.br e do portal Superesportes, além de sistematizar o ingresso e o crescimento do Diario nas redes sociais. O veículo tem, hoje, um dos cinco perfis mais curtidos entre jornais do Brasil no Facebook, com mais de 1,3 milhão de seguidores, afora a presença no Twitter, Instagram e YouTube. "A chamada convergência das mídias e dos profissionais foi difícil. Começamos cedo". O resumo da experiência de Vera no jornalismo está em uma frase dela: "O que importa é a informação de relevância. E ela é necessária em qualquer plataforma". 

Ao longo da carreira, Vera colecionou experiências jornalísticas e, sobretudo, humanas. O convívio com profissionais dos veículos por onde passou rendeu aprendizado e amizades levadas adiante na vida. No Diario, casa onde está desde 1995, divide com os profissionais da redação o resultado do trabalho apresentado na edição impressa, no site e nas redes sociais."Agradeço à equipe pela dedicação, coragem, criatividade e determinação com que encarnou os desafios. Na verdade, são eles que fizeram as transformações e toda a diferença". O sentimento é retribuído por colegas de jornada, dentro e fora do Diario.

Ponto a ponto // Vera Ogando  

Desapego
Passei minha infância sofrendo com a pressão do meu pai sobre meu irmão porque ele gastava o dinheiro que ele ganhava com viagem e bens de consumo. Meu pai era muito apegado. Ele ficava irritado com meu irmão e ameaçava ir embora. Sempre arrumava uma mala velha e colocava no meio da sala. Aos 14 anos, deixei de chorar e disse que ele poderia ir porque eu e minha mãe iríamos nos virar.  Ele não foi, nunca mais fez isso, mas passei a trabalhar a minha mente para depender menos dele. Foi um mecanismo de defesa que acabou sendo libertador, porque aprendi a reagir, me refazer e procurar praticar o desapego. Desde cedo acho que sempre estamos, pouco somos. Trazendo para minha vida profissional, sou jornalista - e estou diretora. Hoje completam-se 16 anos e 61 dias que estou no comando da redação mas sei que isso é passageiro. Tudo passa. Só Deus é eterno. Agora a minha experiência como jornalista com os meus colegas e amigos vou levar ela para o resto da vida.

Maior defeito
A impaciência. É tão grande que leva as pessoas a pensarem que é arrogância. Minha defesa convicta diante de determinados assuntos acaba se tornando um contra-ataque. Isso é péssimo. Debatia muito com meus pares em gestões anteriores sobre a importância do jornalismo e eles (sim, todos homens) ficavam irritadíssimos com a forma como eu colocava as minhas convicções. Hoje nos encontramos e damos boas risadas, viramos amigos. Não sou dona de verdade alguma e preciso aprender a ter paciência, sim. Agora sempre digo a esses amigos que jornalista nasceu para duvidar, desconfiar e debater. É uma ilusão alguém achar que vai tutelar um jornalista. Somos questionadores por ofício. Não fomos forjados para usar coleiras. Nossa essência é discutir ideias. Precisamos ter espaço para defender os nossos pontos de vista.

Amigos
Tenho muita dificuldade em dividir meu tempo. Sou relapsa com os amigos, com a família e até mesmo para cuidar de mim. Durante muito tempo carreguei uma culpa por não ter descoberto mais cedo a doença da minha mãe (morreu de câncer em 2000). Tenho amigos da infância até hoje, da faculdade mas confesso que sou relapsa. Divane Carvalho e Letícia Lins, por exemplo, foram mais que minhas mestres no ofício de ensinar o dia a dia do jornalismo no Jornal do Brasil. Elas foram sempre amigas, presentes, duas irmãs que não tive. Vou deixando para depois a retomada dos laços, o tempo vai passando e aumenta a minha dificuldade em procurar as pessoas. Se minha grande amiga e mentora do jornalismo estivesse viva (Luzanira Rêgo), certamente ela me ajudaria nisso com os seus puxões de orelha e o seu acolhimento. Luzanira tinha a arte de cobrar e cuidar das pessoas dentro e fora do trabalho. Era um exemplo de ética, integridade, de caráter a ser seguido e perseguido. Ela deixou o convívio entre nós precocemente. Sinto muito a  falta dela. Em absolutamente tudo.

Depoimentos

"Já não era sem tempo. Neste ano, o Prêmio Tacaruna Mulher faz justiça a Vera Ogando. Ela é uma líder nata, lapidada nas redações de jornais. Sabe, como poucos, ouvir, transitar entre interesses diversos e tomar decisões precisas sem abrir mão do respeito às pessoas e à informação. Sem poder adjetivar demais para não ferir as normas de redação, Vera é competente sem ser arrogante, simples na medida certa e poderosa sem ser deslumbrada. E mesmo sem ter perfil esportista, não deixa a peteca cair de jeito nenhum. Sinto não termos trabalhando juntas numa mesma redação, mas me dou por feliz por figurar entre suas amigas".
Vera Ferraz, ex-diretora de jornalismo da Globo Nordeste
 
"Vera é observadora, de fala mansa e trabalho silencioso. Atenta, sabe ouvir e quem sabe ouvir normalmente acerta nas decisões. Vera é boa jornalista e ótimo ser humano!"
Jô Mazzarolo, diretora de jornalismo da Rede Globo
 
"Vera é uma das mais completas profissionais que conheci nestes mais de 30 anos de carreira. Ela consegue reunir características imprescindíveis para um bom jornalista: seriedade, talento e coragem. Muito equilibrada, excelente apuradora e repórter e consegue trabalhar bem em todas as áreas."
Ana Dubeux, diretora de redação do Correio Braziliense
 
"No comando da redação do Diario há quase 20 anos, a jornalista Vera Ogando impôs um padrão de qualidade que vem mantendo sempre à frente o jornal, que é referência de um bom jornalismo. Para isso é preciso competência, coragem e equilíbrio. A nossa profissão não exige apenas informação, é necessário também muita ousadia e uma boa dose de equilíbrio. Essas qualidades presentes no dia a dia de Vera a fazem merecedora do 18º Prêmio Tacaruna Mulher, na área de Comunicação. E nós, do Diario, também estamos de parabéns por tê-la como diretora de redação."
Marisa Gibson, colunista de política do Diario 
 
"Trabalhei com Vera quando éramos repórteres do Jornal do Brasil. Profissional dedicada, muito cuidadosa na apuração e na produção das reportagens não só especiais como as do cotidiano, o chamado feijão com arroz. Tivemos essa convivência profissional quando selamos uma boa amizade. Infelizmente, com as obrigações do trabalho terminou faltando tempo para a gente continuar se vendo, convivendo. Coisas da correria do nosso dia a dia."
Letícia Lins, repórter, ex-colega de sucursal em jornais do Sudeste

"Vera é daquelas pessoas que sempre têm algo a ensinar. Comprometida até a alma com aquilo que faz. Exigente, questionadora, leal e parceira. Particularmente, tenho admiração, respeito e a certeza que estará sempre disposta a ajudar, ensinar. Na minha jornada profissional, ela tem cadeira cativa. A Vera, só posso desejar vida longa. Eu e o bom jornalismo agradecemos."
Roberta Aureliano, diretora de jornalismo da TV Clube

"A gestão de Vera na diretoria da redação impôs uma marca mais competitiva ao Diario, com ganho de fôlego na produção de cadernos especiais e séries, investimento em material jornalístico para o online e as redes sociais e a conquista de prêmios inéditos por parte da redação. As coberturas especiais lideradas por Vera têm um perfil próprio, com busca incansável pela apuração detalhada e a ampliação do debate nas mais diversas esferas. Trabalhamos juntas na empresa há 22 anos. Ainda hoje, aprendo. Inclusive, sobre paixão pelo jornalismo, algo essencial nessa caminhada na redação."
Marcionila Teixeira, repórter especial do Diario 
 
"Vera é uma mulher incrível. Forte, decidida, formadora de opinião e uma líder capaz de tomar decisões sob pressão e com o olhar único dela sobre o momento do jornalismo. O mesmo olhar que ela enxerga o potencial de cada repórter para determinada missão, para cada pauta especial. Uma mulher que cresceu entre Tejipió e os arredores do Arruda e com a garra das pessoas simples que sabem o que querem e que trabalhou muito para vencer. Ela também é extremamente sensível com os que ama e tem um sorriso que contagia todo mundo naqueles dias que o clima na redação está mais leve e sem correrias. Uma inspiração para nós, veteranas, e para as jovens repórteres. Eu amo Vera."
Aline Moura, repórter de Política do Diario 

“Uma rotina de redação - de decisões  urgentes ou de longo prazo - exige várias qualidades, mas há três que com o tempo vi que são primordiais: coragem, determinação e paciência. Já presenciei este trio em Vera em várias situações e isto é uma força motivadora.”
Jaíne Cintra, editora de Arte e Multimídia do Diario 
 
"É muito importante trabalhar com uma profissional que respeita sua produção e apoia os projetos da editoria de Fotografia. Vera sempre apostou na imagem como conteúdo indispensável na forma de comunicar."
Teresa Maia, editora de Fotografia do Diario

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