• Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no Google Plus Enviar por whatsapp Enviar por e-mail Mais
Cinema Meryl Streep e Daniel Day-Lewis formam um dupla de ouro no Oscar A atriz de The Post e o ator de Trama Fantasma têm três estatuetas cada um e podem igualar recorde de Katharine Hepburn este ano

Por: Ricardo Daehn - Correio Braziliense

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 03/03/2018 10:00 Atualizado em: 03/03/2018 09:59

Daniel Day-Lewis e Meryl Streep são presença constante entre os indicados aos principais prêmios do cinema. Foto: Joe Klamar/AFP
Daniel Day-Lewis e Meryl Streep são presença constante entre os indicados aos principais prêmios do cinema. Foto: Joe Klamar/AFP


"A mágica Meryl" - assim estampada na capa da revista Time, há 36 anos, a atriz Meryl Streep, hoje com 68 anos, já era apontada como a "melhor atriz da América". No lugar de soberba e arrogância, a nobreza da atriz falou mais alto, e ela chegou a classificar tudo como uma promoção "destrutiva" para a sua própria imagem e a convivência com os colegas atores. Uma noção de grupo, de empreendimento coletivo, por sinal, modela o mais recente trabalho de Streep, que em The post, sob a direção de Steven Spielberg, recebeu a 21ª indicação ao Oscar. Brilhante na composição de Katharine Graham, editora do jornal que marcou posição contra o abuso de décadas de mentiras empilhadas pelo governo norte-americano, no tocante à Guerra do Vietnã, a atriz celebrou, em entrevistas promocionais de The post, que os "jovens cada vez mais têm ingressado nas escolas de jornalismo, por todos os Estados Unidos".

Quer receber notícias sobre cultura via WhatsApp? Mande uma mensagem com seu nome para (81) 99113-8273 e se cadastre 

Entre as sabidas benemerências de Meryl, sempre reconhecida pela ênfase na cidadania, estão o apoio (inclusive financeiro) ao Comitê de Proteção a Jornalistas. Engajada, a atriz nunca perde a chance de desacreditar discursos da atual era Trump. Em The post, entretanto, voz e inspiração foram de via contrária, e positiva, como assumiu ao falar da composição, para as telas, de Katharine Graham, da qual extraiu a voz, ao ouvir a autobiografia (Personal history) lida pela autora que venceu o Prêmio Pulitzer. "Quando ela estava com você e os olhos dela te buscavam, você era a única pessoa no mundo", comentou para a imprensa estrangeira. Streep destacou ainda certa afinidade com o tipo de "americana instruída" proposto por Graham, numa época que prevaleciam presença e classe.

Meryl Streep como Margaret Thatcher em A Dama de Ferro. Foto: Paris Filmes/Divulgação
Meryl Streep como Margaret Thatcher em A Dama de Ferro. Foto: Paris Filmes/Divulgação

Repassar a trajetória de vida doméstica de Streep não traz dos maiores desafios. Ela preza a relação estável com o marido, o escultor Dom Gummar, e tem uma família com quatro filhos. Da primeira vida conjugal, é sabido que cuidou do marido, o ator John Cazale, até a morte dele, vitimado por câncer. Nascida em Nova Jersey, Mary Louise, que estudou em Yale, surpreendeu desde cedo: na vida acadêmica, fez 40 peças de teatro em apenas três anos. O entrosamento com as aulas de ópera, na adolescência, assegurou o excelente desempenho em papéis ligados ao canto, entre os quais Caminhos da floresta, Florence: Quem é essa mulher?, Mamma mia! e Lembranças de Hollywood.

Verdadeiro modelo

Dona de 28 indicações ao Globo de Ouro de melhor atuação, Meryl Streep é tanto um sinônimo de versatilidade quanto um emblema para a propulsão profissional feminina: em meados dos anos 1980, era a única atriz entre os nomes das 10 maiores bilheterias. Uma espécie de personagem modelo de pulso paira em filmes como A dama de ferro, As sufragistas, Silkwood: O retrato de uma coragem e, para o mal, em fitas como O diabo veste Prada e Sob o domínio do mal. Irrepreensíveis, diretores como Fred Zinnemann e Woody Allen deram o terreno inicial para Streep, nos filmes Julia (1977) e Manhattan (1979). Streep, ao longo da carreira, foi talhada pela fina nata de cineastas composta por Clint Eastwood (do esplendoroso As pontes de Madison), Mike Nichols (A difícil arte de amar), Karel Reisz (A mulher do tenente francês) e Robert Altman (A última noite).

O preciso respeito a pausas dramáticas e uma elaboração de sentimentos indefinida entre o emotivo e o racional projetam a magnetismo de Streep. Exemplos claros desta arte se afirmaram em títulos dramáticos como Kramer vs. Kramer (com o qual ela levou o primeiro dos três Oscars), O franco-atirador (premiada pela Sociedade Nacional dos Críticos) e Holocausto (série pela qual ganhou um Emmy). "Imitadora" nata, como ela mesma se diz, Streep nadou de braçada nas entonações - se tornando a "rainha dos sotaques", em títulos como Julie & Julia (afrancesada), Plenty (inglesa), Um grito no escuro (vencedora de Cannes, interpretando uma australiana) e A escolha de Sofia, na qual viveu a sofrida trajetória de uma polonesa, na fita que lhe rendeu Oscar, além de Entre dois amores (na pele da autora dinamarquesa Karen Blixen). Entre dramalhões como Música do coração e Um amor verdadeiro, Meryl Streep promove a diferença, tomando as telas com papéis que vão de escritora (Adaptação) à mendiga (em Ironweed, do brasileiro Hector Babenco) até freira, em Dúvida.

Retrato de alma rebelde

Ator bissexto que já ameaçou deixar o cinema por várias vezes, o inglês Daniel Day-Lewis, aos 60 anos, está a dias do que pode ser um feito: com três prêmios Oscar na prateleira, pode chegar ao quarto, em pé de igualdade com a única detentora do mérito, a lendária Katharine Hepburn (morta em 2003). Quem se espantou com o talento do colega de cena em Trama fantasma, filme pelo qual Day-Lewis está indicado pela sexta vez ao Oscar, é Vicky Krieps que, pouco antes do primeiro encontro, no set do longa de Paul Thomas Anderson, se deu conta: "Ele já não era o Daniel. Foi bem intenso". Cortar, moldar e costurar fizeram parte do aprendizado do inglês que, em Trama fantasma, interpreta um estilista obcecado, tão aficionado quanto Day-Lewis que, para confirmar a sintonia com o personagem, confeccionou a cópia de um terno do celebrado espanhol Cristóbal Balenciaga.

Caracterizado como ator de "extraordinária fúria", na conceituada Enciclopédia do Filme, Day-Lewis é lembrado, no verbete reservado a ele, pela rebeldia de quem fugiu da escola, aos 13 anos. Admirador de atores como Montgomery Clift e Heath Ledger, o ator cultua mito de homem introvertido e intérprete aplicado e seletivo. É interessante daí pensar que tenha recusado papéis como o Jor-El de O homem de aço e Vincent Vega, feito por John Travolta em Pulp fiction. Day-Lewis que, nos anos 1980, estreou no circuito teatral do West End londrino se formou em conceituados centros como a Royal Shakespeare Company e a Bristol Old Vic Theatre School.

Nascido em 1957, Daniel é neto do produtor dos filmes de Alfred Hitchcock, além de ser filho do poeta Cecil Day-Lewis e da atriz Jill Balcon. Em casa, a rotina do ator se mistura com mais arte: ele é casado com a atriz e escritora Rebecca Miller, filha do dramaturgo Arthur Miller, que criou o roteiro adaptado para um dos seus filmes de maior sucesso, As bruxas de Salém (1996). Naquela época, Day-Lewis já tinha sido consagrado com um Oscar, por Meu pé esquerdo (1989), em que interpretava um artista com paralisia cerebral. Um ano antes, com a adaptação de um texto de Milan Kundera, A insustentável leveza do ser (indicado ao Globo de Ouro) havia sido posto em evidência. Pouco antes, brilhara com destaque em Uma janela para o amor e Minha adorável lavanderia, respectivamente, de James Ivory e de Stephen Frears.

Comparado, por vezes, com astros ingleses do porte de Alec Guiness e Laurence Olivier, Day-Lewis é associado à compulsão de encarnar em tempo integral seus personagens. Foi assim com Lincoln, de Steven Spielberg, no qual fazia questão de ser chamado de "Sr. Presidente" até mesmo pelo diretor. Reza a lenda que, nos bastidores de Gangues de Nova York (2003), ao viver Bill "O açogueiro" Cutting, ele afiava facas, no almoço da equipe, mantinha o sotaque e até se deixou adoecer, por se recusar a vestir casaco que não condizia com os modelos da época datada do século 19.

Tornar Day-Lewis ainda mais bonito foi o desafio inicial, e assumido, por Paul Thomas Anderson, em Trama fantasma. O filme pode então ser o ponto de virada do ator, disposto a largar a carreira e "explorar o mundo de maneira diferente", às voltas com a feitura de sapatos e na lida com esculturas em pedra, no meio rural de fazenda irlandesa. "Eu e o diretor fomos oprimidos por um sentimento de tristeza, depois de muita diversão com a feitura de Trama fantasma. Algo que nos pegou desprevenidos: não tínhamos a noção do que tínhamos criado. Foi, e segue sendo, algo de difícil convivência", já sentenciou, à imprensa estrangeira, o ator do longa. Seria um final digno para o astro de fitas como Em nome do pai, A época da inocência e O último dos moicanos?.

Acompanhe o Viver no Facebook: 



Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.


Últimas