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Cinema Justiceiras, duronas ou monstruosas: a maternidade sem estereótipos nas indicações ao Oscar O retrato das maternidades feito por filmes indicados ao prêmio americano se distancia de estereótipos e acentua ângulos incomuns na representação do feminino

Por: Ana Clara Brant -

Publicado em: 26/02/2018 19:14 Atualizado em: 26/02/2018 19:26

Indicados na premiação mais importante do cinema mostram a maternidade sem estereótipos. Foto: Fox/Divulgação
Indicados na premiação mais importante do cinema mostram a maternidade sem estereótipos. Foto: Fox/Divulgação

Mildred (Frances McDormand), de Três anúncios para um crime, é uma leoa e uma fortaleza; Zhenya (Maryana Spivak), de Sem amor, é fria e indiferente, Marion (Laurie Metcalf), de Lady bird - A hora de voar, é passional e combativa, enquanto LaVona (Allison Janney), de Eu, Tonya, é maquiavélica e manipuladora.


Esses quatro filmes estão em cartaz em Belo Horizonte e fazem parte da lista de indicados ao Oscar, cuja cerimônia de entrega das estatuetas será no próximo domingo (4). Além da disputa pelo prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, esses títulos têm em comum o fato de abordarem figuras maternas de um modo incomum. Enquanto Mildred e Marion podem ser colocadas na categoria de mães duronas e inflexíveis, Zhenya e LaVona fazerm por merecer o adjetivo de monstruosas.


“Toda essa revolução que está ocorrendo nos Estados Unidos, com as mulheres reivindicando seu espaço, seus direitos – como o movimento Time’s Up contra o assédio – acaba se refletindo nas telas. As mulheres vêm com tudo e surgem novos tipos de mulher”, avalia o professor e editor da revista de crítica cinematográfica cinerocinante.com.br Fábio Feldman.


Na opinião do professor José Ricardo Miranda, “como a figura do feminino está aparecendo com mais potência (na sociedade), isso está perpassando o cinema e trazendo um novo olhar. É um feminino de transição. E acabam surgindo novas facetas, mulheres fora do chamado convencional”, afirma.


Cinebiografia da patinadora americana Tonya Harding (Margot Robbie), Eu, Tonya, de Greta Gerwig, é um filme talvez mais revelador sobre a mãe da esportista envolvida num ataque à sua maior rival, Nancy Kerrigan (Caitlin Carver), do que sobre a própria protagonista. LaVona Golden, vivida por Allison Janney – que concorre ao Oscar de melhor atriz coadjuvante e venceu o Globo de Ouro com o papel – subjugou a filha desde seus 3 anos de idade, usando de violência física, ameaças e chantagem emocional com o alegado intuito de transformá-la em "uma campeã".

"Queria ter uma mãe assim como eu. Não uma boazinha, porque mãe boazinha não leva a lugar nenhum”, diz a personagem, num diálogo em que a filha cita seus maus tratos. "Ela é a antítese do que a gente entende como mãe. Ela combate o afetivo, chega a ser aberrante e justifica que fez o que deveria ser feito”, analisa José Ricardo. Nos créditos finais, quando se revela como estão hoje os personagens mostrados no longa, há uma frase curiosa sobre o momento atual de Tonya Harding. “Ela está casada, tem um filho de 7 anos e quer que todos saibam que é uma boa mãe."

Mildred Hayes, de Três anúncios para um crime, de Martin McDonagh, papel pelo qual Frances McDormand é favorita ao Oscar, é uma mulher inconformada com a ineficácia da polícia em encontrar o culpado pelo brutal assassinato de Angela, sua filha. Mildred decide pressionar as autoridades cobrando uma solução em três outdoors alugados na estrada onde ocorreu o crime.

"É uma mãe de bom coração, que briga com a cidade inteira porque quer justiça. Ela tem a questão da culpa também, já que há um flashback que mostra uma discussão pesada com a filha no dia do crime. Tudo isso a transforma numa espécie de justiceira”, comenta Fábio Feldman. O crítico ainda cita o papel da atriz Sandy Martin, que é coadjuvante na trama, mas protagonista na vida do filho, o policial Jason Dixon (Sam Rockwell). “Ele já é um homem feito e é ela quem o comanda. Parece aquelas mãezonas da máfia italiana. É muito interessante essa produção mostrar dois tipos de mães completamente diferentes entre si e fora do usual", observa.

José Ricardo Miranda salienta esse aspecto combativo da protagonista vivida por McDormand. Ele a vê como quase uma xerife. "O filme é meio western, então a Mildred é quase um Jonh Wayne feminino. As mulheres são muito fortes nesse filme. Os homens são meros peões”, avalia. Já para a psicanalista, historiadora e consultora em educação Inez Lemos, das quatro personagens citadas acima, Mildred é a mais próxima de uma mãe "comum". Aquela que briga pelos filhos, que vai à luta para fazer justiça. "É uma personagem muito interessante, que é contra o racismo, as injustiças, mas tem alguns clichês, como na própria briga com a filha. Uma coisa meio autoritária, exagerada. A menina quer de qualquer jeito o carro, e a mãe não cede. Numa sociedade que quer vender tudo, em que o capitalismo está de um lado e a família do outro, é difícil educar filho. O cinema reflete isso que está ocorrendo", afirma.

SEM AMOR 
Há mães que amam demais, outras amam de menos, como está claro no longa russo Sem amor, de Andrey Zvyagintsev, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Boris (Alexey Rozin) e Zhenya (Maryana Spivak) estão se divorciando. Depois de anos juntos, os dois se preparam para suas novas vidas: ele com sua nova namorada, que está grávida, e ela com seu parceiro rico.

Nos novos rumos de ambos, não há lugar para o filho Alyosha (Matvey Novikov), mas o garoto acaba desaparecendo misteriosamente antes que os pais se livrem dele. O gelado inverno russo acentua a frieza das relações em Sem amor. Num diálogo com seu atual parceiro, Zhenya confessa que sentiu “repulsa” pelo bebê desde que o viu. Ao marido, diz que se arrepende de não haver seguido o conselho que recebeu da mãe para abortar.

Inez Lemos observa que de fato existem mulheres que rejeitam os filhos quando nascem e que nem todas têm vocação para ser mãe. A psicanalista explica que mesmo a Rússia pós-socialista já está centrada nos valores de mercado e que o filme mostra como isso se reflete nas relações familiares. “A questão do consumo está cada vez mais forte, a frivolidade das relações, o narcisismo, o sujeito focando no exterior, tanto que vemos as pessoas, incluindo a mãe, o tempo todo no celular. Ela é omissa, e o pai vai na mesma onda”, comenta.

Fábio Feldman enxerga o aspecto cultural bem presente no longa, citando uma vertente não só russa, mas nórdica, comum nos filmes do sueco Ingmar Bergman. “É tudo muito pesado. A visão de que a vida só tem erros. A mãe faz questão de dizer que o filho é uma decepção, que não o queria, mas, ao mesmo tempo, está procurando por ele o filme todo e diz que não desistiria dele de forma alguma. Zhenia é a caricatura do Sem amor. Ela quer muito amar, mas não consegue. E isso vem lá detrás, já que sua mãe é terrível”, diz.

O embate entre a filha, Christine McPherson (Saoirse Ronan), e sua mãe, Marion (Laurie Metcalf), é um dos eixos centrais de Lady Bird - A hora de voar. Donas de personalidades fortes, elas parecem alternar momentos em que se amam e se odeiam. Danny (Lucas Hedges), namorado de Lady Bird, define Marion como “afetuosa e assustadora ao mesmo tempo”.

PASSIONAL 
"Talvez seja a mãe mais ‘normal’ das quatro. Não sabemos como foi exatamente a relação de mãe e filha em Três anúncios para um crime. Em Lady Bird, a família é estabilizada. A mãe é passional, direta; a filha, contestadora. A relação fica seca muitas vezes", diz o professor José Ricardo Miranda.

Para Fábio Feldman, Marion é afetiva, mas tem uma dificuldade enorme de expressar esse sentimento. “Ela me lembra um pouco a Mildred, mas sem a tragédia. É um momento que muitas mães atravessam, que é a adolescência dos filhos, eles querendo descobrir o mundo e esses embates costumam ocorrer. De uma maneira geral, Mildred, Marion, Zhenia e LaVona são bem diferentes entre si. Elas fogem do clichê da mãe bondosa, carinhosa, que sempre perdoa tudo, mas, em comum, são fortes e empoderadas. É um reflexo das mulheres do nosso tempo e é bacana ver o cinema explorando isso”, avalia.

Inez Lemos chama a atenção também para outro filme com indicações ao Oscar – Mudbound – Lágrimas sobre o Mississippi, de Dee Rees. Centrado na convivência de uma família branca (os McAllan) e uma negra (os Jackson) no pós-guerra, o longa aborda o conflito racial nos EUA e o surgimento da Klu Klux Klan. A psicanalista observa que a figura materna não predomina no longa, mas a instituição familiar. E aponta para um aspecto interessante e também pouco usual no cinema, pelo fato de a família negra ser muito mais afetuosa do que a branca. “Muita gente, inclusive no Brasil, tem essa visão de que as famílias mais pobres são menos estruturadas, não têm amor. Isso não é verdade. Nesse filme há esse contraponto. O negro e o branco vão para a guerra, e o mais pobre é muito mais bem recebido na volta do que o branco. Os Jacksons são muito mais amorosos”, afirma.

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