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Carnaval História da família Canuto, fundadora do Cariri Olindense, fecha série Filhos do Carnaval Romildo Canuto, da terceira geração, explica as origens da troça e mostra o quanto a folia pode transformar a vida de todo um bairro

Por: Isabelle Barros

Publicado em: 03/02/2018 09:12 Atualizado em:

Romildo Canuto com uma miniatura do símbolo da agremiação: a chave de abertura do carnaval de Olinda. Crédito: Thalyta Tavares/Esp. DP
Romildo Canuto com uma miniatura do símbolo da agremiação: a chave de abertura do carnaval de Olinda. Crédito: Thalyta Tavares/Esp. DP

Romildo Canuto Filho, de 58 anos, se acostumou a ver as fantasias da Troça Carnavalesca Mista Cariri Olindense tomando sua casa desde a primeira infância. “Três meses antes do carnaval, começávamos a ficar sem dormir, pois todos os cômodos da nossa casa da Rua do Amparo, e primeira sede, eram tomados por tecidos e gente costurando”, recorda. Como integrante da terceira geração da família Canuto, que ajuda a tocar a agremiação desde 1921, ano de sua fundação, o tesoureiro tenta levar adiante o legado da troça mais antiga de Olinda. Este é o quarto e último perfil da série Filhos do Carnaval, que trouxe desde o dia 13 de janeiro, todos os sábados, histórias de pessoas cujas vidas foram moldadas pela festa popular.

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De acordo com Romildo, o funileiro Augusto Canuto, seu avô, teve a ideia de fundar uma troça e foi comprar, com amigos, materiais para ela no Mercado de São José. Chegando lá, encontrou um vendedor de ervas conhecido como Cariri, com roupas de tropeiro, acostumado a viajar no lombo de um burro.. Uma fotografia de época, guardada na atual sede da agremiação, no Largo do Guadalupe, é uma recordação da figura que inspirou o grupo.

Mesmo com toda essa convivência com a folia, conta Romildo, sua entrada no Cariri aconteceu depois de certa resistência. “Nossa troça é considerada como dos ‘coroas’ e’, quando eu era jovem, eles - incluindo meu pai - não me permitiram participar. A solução foi eu me juntar com outros amigos e fundar outra troça, o Guaiamum de Olinda, em 1970, quando eu ainda era adolescente. Só fui admitido depois de fazer 18 anos”. Desde então, o auxiliar de contabilidade aposentado se desdobra no primeiro dia de Carnaval. A concentração do Guaiamum começa às  15h do sábado e a orquestra só recolhe às 23h. A partir daí, se inicia a segunda parte da odisseia carnavalesca com a recepção do Cariri, que começa à meia-noite e termina apenas às 8h do domingo. “Só  volto a brincar na segunda-feira”, frisa Romildo.

Um dos aspectos mais importantes da existência do Cariri é o seu papel simbólico na folia momesca da Cidade Patrimônio. É a agremiação que porta a chave responsável pela abertura do Carnaval de Olinda. O Clube Carnavalesco de Alegoria e Crítica O Homem da Meia-Noite surgiu a partir de uma dissidência da troça e, durante anos, a relação entre ambos foi tensa. “Se alguém pisasse na sede do nosso bloco com a camisa do Homem da Meia-Noite, era posto para fora imediatamente.  Quando meu pai assumiu a presidência, isso passou. Hoje em dia vivemos em harmonia”, ameniza.

A interação entre os dois, por sinal, produz, anualmente, um dos momentos mais bonitos do Carnaval pernambucano. Às 3h do domingo, o Homem da Meia-Noite chega até a sede do Cariri Olindense, beija a chave, carregada pelo filho de Romildo, Rômulo Santana, e entra porta adentro na casa, localizada em frente à Igreja de Guadalupe. Este momento marca os preparativos para a saída do Cariri, marcada pontualmente para as 4h e embalada pela Orquestra do Maestro Oséas. A partir daí, a agremiação passa por pontos estratégicos do Sítio Histórico, como os bairros de Guadalupe, Amparo, Quatro Cantos, Ribeira, Prefeitura de Olinda e uma tradicional parada na Casa de Dona Dá, na Rua da Boa Hora, onde é servido um farto café da manhã. A parada dá forças para os foliões encerrarem o percurso, com o sol já no céu.

Como folião nascido e criado na Cidade Patrimônio, Romildo também identifica mudanças profundas na quantidade de pessoas que vão ao município aproveitar tanto as semanas pré-carnavalescas quanto a folia propriamente dita. “Por tradição, não fazemos prévias. Até as fantasias abolimos. Mas, para mim, o que mais mudou foi a violência. A quantidade de seguidores do Cariri é mais ou menos a mesma ano após ano, mas é uma quantidade enorme de pessoas. Nosso horário é complicado, pois desfilamos justamente na troca de turno dos policiais. Contratamos seguranças para nosso desfile, mas é difícil controlar as pessoas. Nos ensaios de rua antes do carnaval, há gente demais e até energia tem faltado ultimamente”, aponta.

Eleito Patrimônio Vivo de Pernambuco em 2016, o Cariri está próximo de comemorar seu primeiro centenário. O título, segundo Romildo, trouxe mais visibilidade para a troça, que se apresenta em outras cidades quando é convidada. Ao falar sobre a efeméride, Romildo se empolga. “Queremos comemorar os cem anos com comemorações em 2020, 2021 e 2022 para não esquecermos ninguém”.

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