• Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no Google Plus Enviar por whatsapp Enviar por e-mail Mais
Em Foco João Gilberto no tribunal que não sabe julgar nada Drama de artista, que aos 86 anos enfrenta problemas pessoais e financeiros, é tratado como piada

Publicado em: 02/02/2018 07:57 Atualizado em:

Foto: Arte/DP (Foto: Arte/DP)
Foto: Arte/DP

Se o pior tribunal é aquele que julga sem maiores preocupações em transformar a verdade em meio e fim, as redes sociais podem servir como melhor exemplo dele. Não se deve estranhar, pois, que o abismo no qual o cantor e compositor João Gilberto – um dos maiores ícones da Bossa Nova- afunda, a alguns meses de completar 87 anos, transforme-se em alvo de comentários estúpidos, como atribuir a desgraça financeira exclusivamente a excentricidades e a “caduquices”. A propósito, o preconceito com a velhice ou com a iminência dela nunca encontrou terreno tão adequado. Basta lembrar do que escreveu, há pouco, um sujeito no perfil oficial da cantora Madonna, conhecida por abusar da irreverência em relação a instituições e comportamentos dos quais discorda. Na foto, feita de baixo para cima, ela aparece quase irreconhecível, sem maquiagem e com um peito à mostra, levando o internauta a perguntar se estava bêbada e a defender uma tese ridícula, considerando-se que já saímos há algum tempo da Idade Média: “As mulheres não deveriam mostrar seus peitos depois dos 40, deveriam assumir seu lugar na sociedade (…) Lamento por seus filhos; se fosse minha mãe, eu estaria morto de vergonha”. A cada resposta assim, de vergonha morremos todos nós que crescemos à luz dos ideais de liberdade e defendendo, com unhas e dentes, o direito de exercê-la.

Enquanto desciam o malho na conhecida decisão do mito pop de seguir contrariando um conservadorismo que torna o mundo um lugar incômodo, o gênio que deu vida a incontáveis maravilhas eternizadas em discos de vinil e CD seguia vivendo o drama de não se governar mais e ainda sendo obrigado a assistir a uma disputa travada entre filhos e a mulher a quem eles atribuem a decadência financeira do pai – Cláudia Faissol, mãe da filha mais nova dos dois, hoje com 13 anos. Nervoso com episódios que não consegue entender nem administrar – como a invasão do seu apartamento no Leblon por homens do Corpo de Bombeiros, alertados pela ex-mulher sobre a possibilidade de ter-lhe acontecido alguma coisa – ele se mostra desnorteado e aflito. A saúde anda precária, sobretudo pela dimensão que tomaram os desastres financeiro, agora olhados de perto pela cantora Bebel Gilberto, filha dele com Miúcha Buarque, que ganhou na justiça o direito de tomar qualquer decisão neste terreno. Terreno, aliás, milionário, com cifras que aumentam os olhos de empresas envolvidas na administração de direitos sobre a obra e o show dos 80 anos do artista, nunca realizado, com R$ 5 milhões pagos antecipadamente e não devolvidos.

Agora que as agruras da reta final se acentuam, é fácil avivar ainda mais as cores do drama de João lembrando apenas do “folclore” em torno de comportamentos estranhos atribuídos desde sempre a ele. Seria de uma intolerância tal que declararia não suportar nem o canto dos pássaros, por considerá-lo desafinado. Para o cronista musical e amigo Zuza Homem de Mello, no entanto, tratava-se somente de “um desejo pela perfeição acima de qualquer limite”. A mídia jocosa foi, o tempo inteiro, pródiga em divulgar casos nos quais protagonizou episódios de “intolerância” explícita ao longo da riquíssima carreira. Não era bem assim. Mas, nem mesmo depois de diagnosticado como vítima de Transtorno Obsessivo-Compulsivo, os ataques disparados em forma de piadas cessaram. Entende-se, pois falta seriedade e conhecimento. Mas, seja em relação a João Gilberto, a Madonna ou a qualquer outro artista que tenha caído nas graças do mundo por puro talento, a conclusão é uma só: as redes sociais não servem de parâmetro para avaliar a obra de ninguém. Quando muito, para fazer rir (ou chorar) quem entende mesmo do riscado.


Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.


Últimas